Nem o alarma que disparou no Aeroporto Internacional de Los Angeles fez parar o show de capoeira que alguns dos componentes da Escola de Samba Unidos de Miami mostraram no desembarque do vôo 986 com destino a Seoul.
Tudo começou com um bater de palmas de um dos componentes que timidamente marcava um ponto de guerra. De repente Mestre Caboquinho tirou o berimbau de sua vestimenta e começou o espetáculo. A roda formada, as rezas de chão, as bençãos e a capoeira de Eldio Rolim (Cabello) e Tisza Coelho, foi dada oficialmente a partida para a Escola de Samba Unidos de Miami rumo ao oriente.
Os passageiros em trânsito não entendiam. Como esta gente pode continuar tocando e dançando com o alarme soando? De onde vem tanta gente diferente fazendo o mesmo som? americanos brancos, negros e mulatos, hispanos e brasileiros de todos os tipos? e todos batendo uma música estranha e cantando coisas estranhas com a mesma batida, seria alguma nova tribo ou alguma nova religião?
Já no aeroporto de L.A. senti o primeiro arrepio na espinha. De repente me vi batendo palmas e acompanhando o grupo. Afinal era para isto que eu estava ali. Para tocar qualquer coisa.
No dia anterior, na hora marcada, todos os 55 componentes da Escola de Samba compareceram ao aeroporto de Miami no dia cinco de agosto às 3 horas da tarde. Eu já imaginava que o responsável por esta jornada, o capixaba Paulo Gualano, era exagerado nos horários. Também com uma experiência de quase 20 anos neste mercado ele deveria ter alguma razão para exagerar. O vôo saiu às sete da noite com destino a Los Angeles, a primeira escala do grupo.
Após o show de capoeira no aeroporto de L.A., encaramos 13 horas de viagem para Seoul capital da Coréia. E quem dormiu? Surgiu um cavaquinho em forma de banjo, um pandeiro e um tamborim. Na voz de Lázaro Franco, uma das figuras mais simpáticas e positivas do grupo, surgiu o primeiro samba. E rolou durante muitas horas até se descobrir que havia caído um avião da Coréia e os passageiros poderiam se ofender com tanto samba e tanta felicidade. Alguns minutos de silêncio foram observados.
No aeroporto de Seoul, o representante da Vasp abriu uma fila especial na imigração já dando mostras de que este era um grupo especial. Afinal, a Nike estava gastando milhões de dólares para promover o futebol do Brasil pelo mundo e tudo deveria sair perfeito. Paulo Gualano controlava tudo como um soldado num campo de guerra. No aeroporto, dois ônibus nos esperavam para levar ao Hotel Intercontinental, um dos mais luxuosos de Seoul. A diferença do fuso horário começou a pesar. Como este povo vai tocar, jogar capoeira e sambar depois de tantas horas de vôo – e quase sem dormir?
Que horas são? Ninguém mais sabia de nada. Continuava sendo quarta-feira e após um descanso, a primeira exibição de rua – a divulgação do jogo foi pouca – Dos 65 mil ingressos disponíveis só foram vendidos 30 mil. A Escola de Samba Unidos de Miami tinha que levantar, em dois dias, mais 35 mil ingressos. Foi quando “elas” começaram a se produzir. No avião quase não se podia notar atrás daqueles óculos intelectuais de Flávia Barbosa a escultura guardada. A beleza de Kátia dos Santos era de se notar já no rosto, mas seria verdade? Era possível existir aquela harmonia? Era tudo dela? Ana Cristina de cabelo preso, soltou nas ruas de Seoul, os 120 centímetros de um rabo de cavalo deslumbrante. E a Marcia da Rosa? um monumento que deixava os coreanos boquiabertos, a Patricia Duarte com aquelas roupas tímidas de garotinha, nas ruas de Seoul transformou-se numa deusa de salto alto com o público delirando. A Carolina Menezes, uma chilena com aquela pele branca e a ginga de mulata mostrando todo o seu ar sensual fluir pelas ruas de Seoul. E quem poderia resistir a Jennifer Tomasoni? com seus olhos amendoados, a pele dourada e o corpo nota dez ? Quem poderia resistir a este apelo? E a bateria? Os primeiro calos mostravam nas três apresentações de rua que os 35 mil ingressos adicionais seriam vendidos – e foram.
Com o sucesso alcançado, os mais jovens chefiados por Michael Costa, subiram a “ladeira da montanha”, um prostíbulo coreano – mas só pra brasileiro vêr. Com o estádio lotado e após o show da Escola de Samba Unidos de Miami, o time do Brasil entrou em campo meio cansado e sem inspiração. Os coreanos ganhavam de um a zero. No intervalo mais um show. Final: Brasil 2 – Coréia 1. De volta ao hotel, quando entramos no ônibus os coreanos seguiram agarrados mandando beijos, com gestos de “leve o meu coração”. Como pode um povo perder e continuar torcendo pelo adversário? Um espetáculo inesquecível…
À noite, os jogadores da seleção e os jornalistas brasileiros preferiram o nosso hotel. Vinham de todos os lados para ver as meninas ou curtir o tamborim do Mestre André. O jogador Ronaldo (9) pulou o muro, se engraçando para uma componente do nosso grupo. A modelo levou bronca do general Gualano e quase foi banida do grupo.
Da Coréia seguimos para Osaka, no Japão. O hotel (Ritz Carlton), era ainda mais luxuoso do que o anterior. Um cafezinho custava 10 dólares. Cada porta era aberta por 3 ou 4 japoneses que faziam os tradicionais gestos de reverência. Logo no primeiro dia o grupo descobriu as galerias do metrô. Era uma outra cidade dentro de Osaka. Esta cidade subterrânea era mais limpa, cheia de lojas, camelôs, restaurantes de todos os tipos, mercados, super-mercados. O metrô limpo e bem organizado. O grupo se dividiu. Uns seguiram para a cidade de Nara, onde está o Museu Nacional, o parque Kohfukuji com diversos templos, entre eles o “Grande Buda”. Outros seguiram para Kioto e Kobe. Os mais aventureiros se perderam pela cidade.
A última noite livre as pessoas se encontravam meio sem combinar no John’s Place, uma casa de jazz (em frente ao Blue Note japonês) com entrada franca. Um trio de japoneses tocava músicas de Louis Armstrong e outros monstros sagrados. Num dos intervalos Ettiene Fuentes senta na bateria, o Julio Acosta corre no hotel afina as suas congas, o Afonso Sanz disputa o microfone com o Carlos Arazera, os irmãos Ramirez no piano e nos tambores. Bye Bye Japão. Com a chegada de Paulo Gualano na guitarra, aí então ninguém segurou o grupo… O samba rolou até as 6 horas da manhã.
Em Osaka não havia mais a necessidade de promover o jogo. Os 75 mil lugares já estavam vendidos e os cambistas anunciavam a venda de um ingresso comum por 200 dólares.
O grupo, já mais definido, afinado e com mais sincronização nos horários, apostava num espetáculo ainda maior. Metade do estádio vestia a camisa da seleção do Brasil. A torcida canarinho, de olhos japoneses e coração brasileiro, xingava os pais, os avós.
Numa falta cobrada contra o Brasil, os gritos: FILHO DA PUTA, FILHO DA PUTA, FILHO DA PUTA… Não dava para entender direito tamanho fanatismo. Quando a Escola de Samba Unidos de Miami adentrou no estádio foi um delírio. Primeiro, um show de tambores japoneses, depois o samba de Paulo Gualano e suas morenas de ouro. O Brasil deu um passeio – final: três a zero.
Após o jogo, eu e o Carlos Borges (como bons nordestinos) tomamos banho nos chafarizes da praça e seguimos de ônibus para Fukuoka. De lá voamos para Seoul, Los Angeles e finalmente Miami. As fotos e as histórias são muitas. Os jornalistas convidados prometeram fazer um curso intensivo de tamborim com Mestre André Magalhães. Até dezembro, quando a seleção do Brasil for jogar na África do Sul, a Nike já demonstrou interesse em contratar 100 componentes da Escola de Samba Unidos de Miami. Até lá, muito samba vai rolar.