Isto não é, na realidade, um livro sobre Cuba.

São notas de viagem… Momentos de felicidade.
Não levei uma máquina fotográfica, como todo bom jornalista faria, simplesmente fui…
Como cidadão americano não poderia entrar no país com o passaporte americano. Morando em Miami me informei sobre as diversas possibilidades e descobri que somente poderia entrar em Cuba como brasileiro… por Cancun, República Domenicana, Nassau ou outras pequenas cidades. Optei por Nassau, Bahamas.
No dia de minha saída, Marcella (minha filha) me deu um caderno de notas. E instintivamente comecei a anotar algumas passagens…
Virou este livreto com algumas histórias… pequenas – mas eternas – memórias.
Espero que gostem…

MI HABANA QUE EU GOSTO
Quando fui rodar o mais recente livro (TATUAGENS) em Porto Alegre, o pessoal da gráfica me informou que demoraria uns 15 dias para ficar pronto. Daí surgiu a ideia de visitar o amigo Paulo Rollo, um jornalista que viajou (no mesmo carro) todos os países das Américas, da Europa e da África. Na época em que ele passou por Miami, eu publicava o jornal Flórida Review e numa entrevista perguntei onde ele jogaria a sua âncora. Sem pestanejar respondeu: FLORIANÓPOLIS, no Estado de Santa Catarina.
Então, no ano de 2004, segui do Rio Grande do Sul à Florianópolis, para visitá-lo. Ele havia comprado um belíssimo chalet no alto de uma colina, casou com uma mulher bem mais jovem e ao pé da montanha construiu um bangalow para os hóspedes.
Ao chegar no bangalow dei de cara com uma fitoteca na parede com mais de 500 DVDs. No escuro peguei o Buena Vista Social Club, um documentário que o cubano Juan de Marcos Gonzalez e o guitarrista americano Ry Cooder (dirigido pelo alemao Wim Wenders) filmaram em Habana, Cuba.
Eles reuniram no final dos anos 90, diversos músicos cubanos dos anos dourados (1930 a 1950) como: Compay Segundo, Ruben Gonzalez, Ibrahim Ferrrer que morreram entre 2003 e 2005 com 95, 84 e 78 anos respectivamente. O filme – de excelente qualidade musical – apresentava ainda Manuel “Guajiro” Mirabal, Barbarito Torres Aguaje Ramos, Carlos Calunga, Rolando Luna, e a maravilhosa Omara Portuondo. O mais interessante é que poderia ter visto mais filmes, mas não sei porque, fui repetindo a fita….coloquei mais uma vez, mais uma e mais uma.
E quem seriam estes músicos????
Ao final decidi: TENHO QUE IR À CUBA.
O tempo passou e a ideia continuou.
Em 2009 decidi viajar. Tinha que ainda pegar o Comandante com vida. E lógico, saber se tudo o que escutávamos, era realmente verdade.
Após o anúncio de muitas partidas e desistências me vi numa situação única: tinha que viajar para Cuba. Todos os meus amigos de Miami perguntavam? E aí? Como foi em Cuba?
Ainda não fui…
Caí no descredito.
Comecei a entender que o melhor da viagem era a própria viagem, o sonho de viajar antes da partida. Conheci toda a Ilha (em pensamentos) na internet, em livros, videos e filmes – durante mais de um ano. Quando em julho de 2010, finalmente, aconteceu.
Saindo de Miami, com passagem somente de ida (que custou 120 dólares) para Nassau, Bahamas, a minha aventura começou… A passagem de volta foi confirmada e reservada (mas não paga – válida por 48 horas) dois dias antes da viagem. Assim existiria um comprovante de volta – sem realmente existir o pagamento.
Em primeiro lugar deve-se estar atento para o brasileiro, que esteja residindo nos EUA, só poderá viajar para Cuba se possuir o passaporte americano. Isto porque até a presente data (vai mudar) entra-se com o passaporte brasileiro em Cuba e na volta, entra-se nos EUA com o passaporte americano.
Cheguei em Nassau numa sexta-feira, dia 16 de julho de 2010, com esperança de, no mesmo dia, fazer um traslado de avião para Habana.
As 10 da manhã eu já estava no Lynden Pindling International Airport, último no lugar de uma enorme fila – Desde Miami reparei na comunicação entre um grupo de cubanos de diferentes idades. Roupas modernas, coloridas… todos com os mesmos movimentos. Carregavam enormes sacos de variadas cores e tamanhos. Cada um falava com o outro baixinho – parecia uma excursão – mas de diferentes backgrounds: mulatos, brancos, negros, jovens, velhos e até crianças…. O que seria aquilo?
Em Nassau, todos os que haviam se comunicado em Miami, estavam de novo, meio que juntos, amontoados, perto do balcão da Cubana de Aviação. Desde Miami já sabia que seria melhor trocar os meus dólares por euros. Fui então para outra fila, no único banco do aeroporto. Na minha frente um dos passageiros da turma colorida.
Amigo por favor, você vai para Cuba?
Sim.
Eu devo trocar os meus dólares por euros ou libras?
Melhor por libras. Vai ganhar na diferença.
E você, viaja muito para Cuba?
Todas as semanas. Você pode levar uma mala extra? eu te pago!
Nao tenho mais espaço. Levo duas malas – sabe se vou pagar excesso?
Sim vai pagar um dólar por libra.
A Cia aérea BAHAMASAIR oferece dois voos por semana e dá direito a uma mala de 50 libras – Cada mala extra paga 20 dólares e o preço de uma passagem (ida e volta) de Nassau para Havana é de $ 340.
Já a CUBANA (também com dois vôos semanais), oferece duas malas com direito a 71 libras – por cada libra extra paga-se um dólar de multa – o preço da passagem de ida e volta: $ 348. Daí a preferência dos muambeiros…
Voltei para a fila da CUBANA de aviação. Esperei por mais umas duas horas e fui informado que o avião estava lotado. O grupo de muambeiros brigava por um espaço. Garanti então imediatamente a minha passagem comprando para o proximo vôo – domingo – três dias depois….
E agora? Para onde ir? Os hotéis em Nassau sao caríssimos e estava no meio da alta temporada de férias. Tinha 600 dólares no bolso e uma passagem de ida e volta para Habana. O medo começou a se manifestar no prazer da minha costumeira loucura.
Depois de muito pesquisar encontrei o SUN FUN HOTEL que me cobrou 70 dólares a diária. No dia seguinte prometi um anúncio para o dono hotel e ele me deixou ficar mais uma noite – de graça. Bom sinal – já começava a acreditar na minha sorte. Mas porque duas malas? Um peso enorme – Levava até casaco de neve – em pleno verão caribenho.
Domingo de manhã peguei um táxi e com 500 dólares no bolso voltei ao aeroporto. Em Nassau não sai jornal aos domingos. Cheguei a rabiscar esta informação num pedaço de papel qualquer. A tal cultura de almanaque. Era como saber que na Nicarágua existem tubarões de água doce – nos lagos ou que mais tarde descobri que a porca só desenvolve dois bicos na mama – se existirem dois filhotes. Para cada filhote ela cria um bico com leite.
Cuba? O que você vai fazer em Cuba? Ficou maluco?
10 meses foi o que mais escutei em Miami. O quadro era tão negro que cheguei até a criar histórias. Antes de viajar a imaginação voava…
Dizia pros amigos que havia conhecido um cubano em Miami e que o irmão (em Habana) era o inspetor do quarteirão – onde então eu estaria coberto pelo sistema. Foi tão grande o boato, o terrorismo, que até eu comecei a acreditar em qualquer novo absurdo.
O meu amigo Marquinhos – taxista em Miami, falou de um cubano (Luiz Fajardo) que havia alugado um local bem barato – em frente ao apartamento de seu irmão no centro de Habana ao lado de Vedado. Porque não liga para ele?
Fui conhecer o ex-motorista de táxi, Luizito. Todo arrumado, me recebeu muito bem num escritório de seguros de vida em Little Havana, Miami. Imediatamente ligou para o seu irmão em Cuba – atendeu o Albertico – o sobrinho.
Pode mandar o seu amigo que a gente acomoda. Foi tão gentil ao telefone que eu não acreditei. Será que ao vivo seria igual?
Dois meses depois eu não havia conseguido resolver a partida – Neste meio tempo fui conhecendo algumas pessoas que tinham parentes na Ilha: a Ana (Irmã do PC e do Carlinhos La Manna, de Miami) é casada com o cubano Pascual. A cunhada, Daysi, tem casa grande em Habana, com licença para alugar quartos para turistas. Ana, Pascual e Carlinhos foram à minha festa de despedida no BOTEQUIM CARIOCA (em downtown Miami), onde mais de 150 amigos compareceram, dois dias antes da minha partida.
Aquela altura eu já tinha dois endereços. Com mais um que consegui na internet – eram três as referências. Mas o destino seria escrito pelo meu próprio destino – MAKTUB . Vai ser o que tiver que ser. Peguei um bloco de notas, a filmadora de minha filha e viajei.
No pequeno avião de dois motores, li o jornal Granma, comi uma bala com o meu nome; CHICO e vi a alegria das pessoas na chegada. Como pode ser possível?
No aeroporto o cara da Imigração perguntou: onde está o visto?
E precisa de visto para brasileiro?
Sim, você pode preencher naquela mesa e paga lá mesmo.
Então um outro funcionário – super gentil e educado – me ajudou a preencher um pequeno formulário e a trocar as minhas primeiras 100 libras por CUC – a moeda oficial para turistas. Paguei uma taxa de 25 dólares pelo visto – e ao trocar o dinheiro descobri que por cada moeda estrangeira o sistema tira 20% – ou seja cada 100 dólares viram 80.
Quando cheguei em Habana não sabia exatamente qual das três pessoas iria telefonar. Fui para um balcão de informações e perguntei como poderia fazer uma ligação de um telefone público. A recepcionista apontou para uma cabine, mas com um sorriso do tamanho de um bonde foi logo dizendo que eu não precisava me preocupar em trocar moedas. Ela mesma faria a ligação para mim. Por que? Sera que ela quer dinheiro? Não, porque sou brasileiro – e o amor pelo brasileiro é incondicionalmente único – e geral. Fiquei um longo tempo conversando com ela, cheio de desejos pela bela lourinha de olhos verdes…. Na verdade era de fato, linda! Prometi que iria voltar e levá-la ao cinema ou qualquer coisa parecida…
Liguei para a Daisy – irmã do Pascual. Não atendeu. Para o cara que aluga apartamentos (clandestinos na internet) – atendeu a máquina… aí telefonei para o Albertico. Ele disse: pegue um táxi e venha para cá. Aqui a gente se vira. Mas você não vinha há três meses???
É…estou atrasado.
Diga para o motorista que eu moro na Brasarrate entre Neptuno e San Miguel.
Ainda no aeroporto (cheio de pessoas alegres, bonitas) pensei: não era o que eu esperava. Não podem existir tantos táxis… e assim de luxo??? Os táxis não são dos anos 50? E estes bares? Estes cafés??? Será que estou realmente em Cuba?
Logo no primeiro dia aprendi que tudo era tabelado. Não existia especulação. Paguei os 25 dólares de praxe. Os táxis – TODOS – cobravam 25 dólares – saindo do aeroporto para Habana.
De cara as avenidas grandes – como em Buenos Aires – diversos billboards (outdoors) com as imagens de Che, Camilo e Fidel. Logo depois, mais um outdoor com os dizeres: Hasta la Vitoria, Siempre!
A partir daí, uma sucessão de painéis mostrando patriotismo e o orgulho do povo cubano.
Quando cheguei no centro da cidade a primeira coisa que notei foi nas escadarias da Universidade de Habana. A um quarteirão da casa de Albertico. De algum lugar, de alguma foto, eu conhecia aquelas escadarias.
Na porta, Albertico esperando. Tirou as malas do carro e me levou para sua casa. Parecia uma casa de vila, da Lapa – no Rio de Janeiro. Um longo corredor interno com diversas portas – uma ao lado da outra – todas as casas abertas com televisões ligadas, rádios, móveis amontoados com decorações coloridas, diferentes…
O apartamento tipo-casa de dois andares tinha na parte de baixo uma pequena sala, banheiro e uma minúscula cozinha. Na parte de cima dois quartos que nunca cheguei a conhecer. Era como – mais tarde descobri – um esconderijo.
Em menos de 2 minutos saiu o primeiro cafezinho – ao estilo brasileiro – a mãe do Albertico aparentava uns 50 anos – extremamente simpática foi logo fazendo alguma coisa para comer.
A partir daí começou o “ movimento” – Era UM ENTRA E SAI DE GENTE NO CORREDOR, INCRÍVEL. A cada cinco minutos entrava alguém numa casa qualquer com uma garrafinha (vazia) na mão. Dava um dinheiro, uma nota embrulhada e saia. Depois passou pela nossa porta um mulato com uma sacola cheia de galinhas para vender, outro com um monte de aipim (mandioca) e finalmente um com uns passarinhos. No apartamento ao lado um homem apontava os números do Jogo do Bicho – que em Cuba (como em Porto Rico) leva o nome de La Bolita. E as garrafinhas não paravam – Em menos de uma hora, alguém comercializou mais de 20 garrafinhas de Ron – no famoso “mercado informal”. O resultado do La Bolita acontecia pontualmente às 8 horas da noite – horário de Miami – e os números do Cash Three e Play Four eram enviados por telefone.
Após o maravilhoso café, Albertico disse: não toque em nada – nao abra as malas… venha comigo – e me levou para um bar – pagou 5 cervejas (um CUC cada uma – ou seja uns 5 dólares) e voltamos para casa. Alberto, o pai, chegou tarde – entrou sorrindo – quase que as gargalhadas… Durante toda a minha estada nunca veria em toda a Ilha, uma pessoa com tamanha felicidade – sempre.
Após as cervejas, Albertico que aparentava uns 30 anos (mais tarde descobri que tinha somente 23 anos) saiu procurando um lugar para eu ficar. Fomos na casa de um casal que alugava quartos para estrangeiros. Cobrou 25 dólares por um quarto com ar condicionado. Deixei saber que nunca decidia nada na hora – que ia pensar e mais tarde daria a resposta. Se fosse pagar 25 dólares a diária, em menos de 20 dias o meu dinheiro acabaria. E eu não comeria nada… O que fazer?
Aí, Albertico lembrou do ex-sogro. Não estava em casa. Mas na escada do outro prédio encontrou um amigo e perguntou se ele conhecia alguém que alugasse quartos para estrangeiros. Aquela altura quase todo mundo tinha um quarto para alugar. Sim, ele tinha um – com ar condicionado e estava oficialmente liberado. O “oficialmente” queria dizer que era um quarto registrado no “sistema” para aluguel. O dono da casa paga uma taxa mensal ao governo e aí pode alugar. Mais tarde descobri que metade do povo cubano aluga quartos na base da ilegalidade. Ou então, registra um quarto e aluga 4, 5 (na mesma casa) sem registro.
Higinio, o proprietário, era um mulato bastante magro, de olhos verdes, altíssimo – O filho era um adolescente gordo e muito simpático. A mulher havia viajado para o interior, para cuidar do pai que estava doente.
O quarto, super limpo. No banheiro não se via um cabelo… nada… o homem tinha mania de limpeza e passava o dia com um mop na mão.
No segundo dia, eu pedi para que ele me cobrasse somente 20 dólares contando a minha longa e verdadeira história. Ele prontamente concordou e ainda fez uma bela fabada. Foi o melhor grão de bico que comi na Ilha… Estava de fato delicioso. Ele começou a me colocar medo – de que eu não deveria alugar quartos com pessoas que não estivessem legalizadas. Era perigoso. A partir daí, todos os dias, o Albertico iria me pegar em casa e me levaria para um lugar diferente.
MINHA PRIMEIRA SAÍDA
Logo na primeira saída passamos pela porta de sua casa e no meio da rua vi uma grande mesa com 4 pessoas jogando dominó. Uma senhora de mais de 80 anos, toda vestida de branco, era uma espécie de croupier do grupo. Ela comandava tudo e ganhava todas as apostas. Ao lado, uma negra alta, em pé, com um vestido longo, olhando para o céu, esperando que a mãe terminasse o jogo para levá-la para casa..
O cabelo preso para cima da cabeça… a roupa colorida num estilo africano – Era de fato uma Deusa. Fiquei alguns segundos olhando para ela, observando tamanha beleza fisica… tamanho porte…
A rua cheia de crianças brincando, correndo com cachorros dos mais diferentes tipos e tamanhos. Todos amigáveis, sem qualquer sinal de ferocidades, agressividades ou treinados para matar – como os que conhecemos no mundo considerado mais civilizado (?)
Da Rua Bazarrate, subimos uma pequena colina em direção ao Hotel Nacional. Criado em 1930, o imponente hotel já havia recebido personalidades do mundo inteiro. Entre os mais antigos registrei: Frank Sinatra, Ava Gardner, Agustin Lara, Rocky Marciano, Tyrone Power, Errol Flynn, John Wayne, Marlene Dietrich, Gary Cooper, Marlon Brando e finalmente o mais famoso de todos: Ernest Hemingway. O Hotel Nacional foi um dos locais onde Fidel se instalou quando entrou na cidade de Habana, nos final dos anos 50. Recentemente ficou também registrado na memória de quem assistiu o filme de Coppola; O Poderoso Chefão 2 – Godfather II.
Em frente ao hotel descemos a rua 21 para conhecer finalmente o tão badalado Malecon… um dos mais famosos cartões postais de Cuba. O mar agitado, sempre batendo nas pedras e respingando gotas no calçadão.
Daí fomos para o Hotel Habana Libre – onde Fidel, em 1959 também ficou hospedado. O belíssimo hotel está localizado em frente a praça da sorveteria Copellia (que ocupa todo o quarteirão) rodeada de palmeiras e magnólias, uma das maiores sorveterias do mundo.
No terceiro dia o Albertico me avisou que iria me pegar no final da tarde – era o aniversário de seu pai – A festa aconteceu na casa do amigo Carlyle – ao lado da Universidade de Habana. Desde muito cedo começou o movimento de solidariedade ao redor da festa – Às seis da manhã Alberto saiu para providenciar a escolha do porco. Levou para casa (já limpo, pronto para assar) e deixou de molho na banheira. Mais tarde descobrimos que estava estragado – o cheiro era insuportável – talvez pelo calor. Ele foi devolver e pegou um novo. O cara da padaria liberou o forno, outro amigo conseguiu uma bandeja. Após algumas horas assando, o porco finalmente foi levado numa moto – aquela de dois lugares – sem qualquer proteção: sem papel de alumínio, celofane, saco plástico… nada – o porco literalmente “viajou” nú, montado numa moto para a casa do Carlyle. Às sete horas da noite Alberto apareceu na festa com a irmã e a esposa. Mais de 10 garrafas de Ron, muitas cervejas, tortillas e um maravilhoso porco inteiro deitado – de pernas abertas – em cima de uma grande mesa. Quando a festa começou Carlyle pediu a todos os presentes que respeitassem a vizinha que estava num velório (Mourning) do marido. A força do Ron foi maior do que o velório e a partir das 9 da noite a salsa e o reagaton tomaram conta do quarteirão.
No meio das bebidas, tentei falar de política. Todos responderam: “em festas não falamos de política”. A um dado momento rolou um sorteio. Haviam duas mulatas lindíssimas – sem namorado. Então eles colocaram alguns papéis em branco dentro de um saco. Somente um papel estaria escrito o nome MULATA. Quem retirasse o papel sorteado tinha direito a uma das mulatas. E eu fui o primeiro. No que tirei, ganhei. A mulher era um monumento – alta, grande, bonita – uma verdadeira atleta.
Depois descobri que fora uma armação: em todos os papéis eles escreveram o nome MULATA – Fizeram para me agradar. Para dizer que já estavam gostando de mim… A partir daquele momento comecei a me sentir metade cubano e a viver um mundo diferente ao dos tradicionais turistas.
Carlyle, o dono da casa, havia falado com a sua tia sobre a minha situação e me ofereceu um quarto para alugar. Quando fui conhecer a casa, dei de cara com quem? A tal Deusa Negra do vestido africano… as minhas pernas tremeram.
O olhar forte, seguro, tinha qualquer coisa de superior. Penetrava fundo por dentro do meu cérebro me deixando meio tonto. Poderia ser alguma coisa espiritual. Afinal, a minha ida à Cuba, além da curiosidade cultural, também seria uma busca espiritual. O olhar da Deusa penetrou de fato em minha alma. Como há muito tempo eu não sentia.
Era uma casa de 4 mulheres – todas Mães de Santo – Quando perguntei onde poderia encontrar um centro espírita ela disse – não sei – não existe por aqui. Como pode ser? Atrás da porta, um copo d’água, espada de São Jorge por todo lado, pilão no chão, com uma escultura de dois caboclos no canto da sala e com charutos cruzados? E as cores de ogum, xangô ???? Porque tamanho mistério? Mais tarde ela me disse que não acreditava em rituais. Que para ser Mãe de Santo ela não precisou de vestir branco por um ano. E que tudo o que estava na casa havia sido presente de amigos…
Em Cuba, para ser Pai ou Mãe de Santo a pessoa tem que se vestir toda de branco por um ano.
A partir daquele momento eu já não precisava muito mais falar com ela, bastava olhar ou pensar que a mensagem já estava dada.
Comecei a encontrar a tal paz, a tranquilidade espiritual. Não precisava mais buscar um centro espírita. Eu estava morando no próprio centro. O mais interessante é que ninguém falava sobre o assunto espiritismo. Durante toda a minha estada (na casa) não vi uma manifestação de pessoas “recebendo espíritos”, se debatendo ou coisa parecida.
O meu quarto ficava no fundo da casa com um banheiro ao lado e um janelão que dava para uma varanda interna onde ficavam as máquinas de lavar e secar. Dentro uma enorme geladeira, cama de casal, ar condicionado e um espaçoso guarda-roupas. Abri minhas malas pensando na bobagem de ter levado tantas roupas inúteis. Até paletó eu levei. Durante minha estada, andei 95% dos dias de bermudas e sandálias havaianas.
No dia de minha saída dos EUA, fui encontrar em Miami Beach uma amiga de 30 anos (trabalhamos juntos num banco em NYC) que tinha uns parentes em Holguim. Falou muito sobre o sistema, sobre o que eu iria experimentar etc. Desde há muito que aprendi “NUNCA SE DEVE DISCUTIR ASSUNTOS POLÍTICOS COM UM CUBANO DE MIAMI”.
E nas minhas festas de despedidas, centenas de pessoas voltavam a perguntar: MAS O QUE VOCÊ VAI FAZER EM CUBA? Lá não tem nada para fazer. O povo morre de fome. É uma pobreza geral…Minha amiga chegou a dizer que todos viviam em estado de grandes dificuldades, com problemas de higiene, de limpeza. Pois o que eu mais vi foi exatamente o contrário: nas paredes sem pintura, nas janelas sem vidros… um enorme sentido de limpeza.
Logo na minha primeira semana em Habana fui com o Albertico conhecer a Daisy, irmã do Pascual (marido da Ana Manna) que mora em Miami. Após algumas cervejas resolvemos ir a pé da Avenida Infanta (descendo pela San Miguel) até a Rua Manrique, onde ela mora. No meio do caminho caiu um temporal e pegamos um táxi. O meu primeiro táxi dos anos 50 – Um confortável ford . Os táxis para os cubanos são tabelados – todos custam 10 pesos em moeda Nacional ou seja uns 40 centavos de dólar. Para lugares mais afastados pode-se cobrar até 20 pesos – 80 centavos de dólar. Os turistas – todos – pagam preços diferentes. Mas para a população, tudo é tabelado – já está implícito que o preço é aquele e não se discute. Eu dentro do táxi não abri a boca. Com cara de latino passava bem por cubano e deixei o Albertico falar.
No caminho fui comparando o visual com aquelas propagandas que circulam na internet sobre Habana e no meu pré-julgamento olhei a arquitetura estagnada, a mesmice das ruas, a feiúra nas pinturas de algumas casas e na forma de vestir das pessoas.
A cada quarteirão meus olhos iam se modificando – não forcei – foi uma mudança natural – simplesmente comecei a ver o tamanho e a beleza das portas, do pé direito das casas, das janelas, das esculturas nos tetos e no rococó dos telhados.
Em poucos minutos chegamos na casa da Daisy. Muito educada, bonita e morando numa bela residência, com um pátio interno – quase como um daqueles jardins espanhóis – nos recebeu com diferentes sucos de frutas tropicais. Sentamos em confortáveis cadeiras de balanço e conversamos sobre a possibilidade dela (no futuro) me adiantar alguns CUC – A segunda moeda corrente de Cuba – Então, os dólares seriam depositados na conta do seu irmão em Miami e ela me pagaria em Habana . Ela concordou e voltamos para casa. A partir daquele dia já estava mais ou menos garantido um suporte de caixa, no caso de alguma emergência.
Dia seguinte aventurei sair sozinho. Caminhei ao redor da Sorveteria Coppelia e desci a Rampa – a rua 23, em Vedado – em direção ao Malecon. No meio do caminho escutei um som e subi para ver. Era uma feira de artes fechada – para entrar tinha que pagar. Quanto? Dois pesos em moeda nacional (mais ou menos um dime) – Mais do que depressa tirei os dois pesos do bolso e entrei. Não parei em nenhuma barraquinha de artesanato – fui direto ver quem estava tocando – lá de baixo senti uma batida brasileira. Tinha que haver um brasileiro na área.
Ao entrar vi na platéia uma garotada bonita, educada, aplaudindo um grupo de músicos de diferentes formatos… gordos, brancos, louros e mulatos tocando uma mistura de samba, salsa e jazz. O artista principal era magro, cabelos encaracolados com um enorme sorriso – a cara do Djavan.
Muito educadamente um jovem levantou-se e pediu que as pessoas ao lado movessem de lugar para que eu pudesse me sentar na ponta. Será que estou assim tão velho? Não, era pura educação e solidariedade.
Após duas ou três músicas ele começa um Jorge Bem, cantando em português… perfeito. E o mais interessante TODOS absolutamente TODOS os jovens cantando em português – juntos – Ô, ô ô ô ô, mariah, raiou, obá, obá, obá… mas que nada, um samba como este tão legal…
De repente me vejo cantando baixinho… fui aumentando e no final já estava quase gritando de alegria. Todos olhavam para mim, já meio sabendo que eu era brasileiro. As meninas ao lado, de cara foram perguntando – É brasileiro de onde?
Do Rio.
Ah, eu adoro o Rio! Daria a minha vida para poder estar lá.
E como ela poderia estar cantando com aquele português tão perfeito se nunca havia estado no Brasil?
No final do show dei a volta atrás do pequeno palco improvisado e fui falar com o cantor, Yolo Bonilla:
Sim, sei cantar assim porque fui ao Brasil (São Paulo) e adorei. Quero voltar…
Quanto tempo ficou no Brasil? Você canta como um brasileiro.
Só fiquei uma semana…
Desci do pavilhão ARTE EN LA RAMPA e voltei para um bar em frente a praça do Coppelia para tomar uma cerveja. Caiu um temporal como há muito tempo não via. De repente entra uma mulher correndo para baixo da marquise do bar – Completamente molhada e com o corpo totalmente encostado ao meu, também pede uma cerveja. A calça, colada no corpo escultural, os olhos esverdeados, alta e extremamente simpática, me pergunta de onde sou.
Do Brasil.
Ah que lindo! sou apaixonada pelo Brasil.
A princípio pensei se tratar de uma pessoa que queria me tirar alguma coisa. Talvez me convidar para uma tarde de alegria.. sei lá … eu perguntei:
Você mora aqui? Trabalha aqui?
Não, em Santiago. Vim para umas reuniões em Havana e trouxe meu filho (estava acompanhada de um jovem de uns 12 anos) Sou arquiteta.
Conhece o Brasil?
Lógico – Já fui três vezes – Sou muito amiga do Oscar Niemeyer. Aquela altura já me vi casado, pai de oito filhos – amante daquela mulher maravilhosa.
Você é amiga do Oscar Niemeyer ?
Sim, você quer uma cerveja? Eu te convido…
Aceitei.
Enquanto tomava a cerveja viajei numa frase do nosso arquiteto maior e comentei: “A fome do estômago só se acalma com o pão da justiça” – E o melhor: ela conhecia…
Falei quem eu era e da vontade de conhecer Santiago. Ela tirou um cartão de visitas da bolsa e me deu: Era a diretora de turismo da cidade de Santiago. Trabalhava num alto cargo do governo.
Quando for a Santiago me procura. Eu te recebo e mostro a cidade.
Ainda dei um beliscão para saber se tudo aquilo era verdade. A mulher era de fato muito linda.
Dia seguinte voltei à casa da Daisy com o Albertico, meu eterno amigo. Lá conheci Teófilo Stevenson, amigo de infância dos irmãos Pascual e Daisy. Havia tomado uns Rons e estava meio adormecido. Quando acordou falei da minha vontade de escrever a sua biografia. A princípio ficou calado me escutando … com os olhos vidrados. Depois começou a falar empolgado sobre Pelé, Garrincha…
Stevenson aos 58 anos de idade, três medalhas de ouro nas olimpíadas (três olimpíadas), nasceu em Camaguey – O pai era um imigrante da Ilha de Saint Vicent e a mãe Dolores Lawrence, embora cubana, também tinha uma ascendência inglesa – da Ilha de Saint Kitts. Mesmo exagerado um pouco na bebida, mantinha sempre uma postura de campeão. Mãos enormes, passos firmes e gestos nobres. Era de fato um homem nobre. De cara foi me dizendo que não servia de exemplo para a juventude. Não estava se vestindo bem e não queria que as pessoas o vissem naquele estado.
Discordei. Falei de Garrincha, que mesmo quando passou por uma fase difícil, nunca deixou de ser adorado, idolatrado pelo povo… e para sempre seria o maior gênio do futebol brasileiro.
Ele conheceu Pelé, Garrincha e Tostão. Mas foi com Maradona que fez grande amizade, quando o jogador argentino viveu em Cuba numa clínica de recuperação, num longo tratamento de dependências químicas.
Stevenson tem uma história incrível. Não é difícil entender porque Fidel Castro o presenteou com uma mansão e o defende como a um filho: Um grupo de empresários americanos ofereceu 5 milhões de dólares para que ele (na época) assinasse um contrato profissional e viesse morar nos Estados Unidos. E desafiasse Muhammad Ali. Ele recusou dizendo: O que vale cinco milhões de dólares comparado ao amor de 8 milhões de cubanos? A partir daí, ganhou o amor de Fidel Castro e de todo o povo.
Com 302 vitórias e 22 derrotas, Stevenson é até hoje, um herói nacional. Quando foi me dar uma carona para casa – já bastante alcoolizado, parou num sinal e deu uma cochilada. Um carro de polícia se aproximou e logo imaginei nós dois na cadeia. Quando chegaram perto, pediram desculpas pelo incoveniente da parada e abriram caminho para o grande campeão. Os policiais ainda chamaram outro carro e lá fomos nós, escoltados pela polícia – para que não acontecesse um acidente – até a minha casa.
Dois dias depois fui à casa da Daisy e lá estava ele de novo me esperando. Uma pena que ele não pôde dar continuidade aos nossos papos. A fase da bebida foi piorando e eu perdendo o contato.
Nesta primeira semana o meu dinheiro acabou. Paguei o primeiro mês de aluguel em adiantado e fiquei com 8 dólares (oito CUC) no bolso. O Albertico me mostrou uma casa que vendia comida para viagem. Custava um CUC – Um dólar – Sempre o mesmo cardápio: moro (arroz misturado com feijão preto), um bife (ou costelinha) de carne porco, platanos maduros (banana cozida) ou Yuca (aipim). A comida vinha numa caixinha de papelão cinzento que absorvia toda a gordura da carne, dando um aspecto horrível. A primeira vez que comi, senti um certo nojo. Depois fui me acostumando… Um dólar..
Mandei e-mail para Miami para cobrar um dinheiro pendente. O problema era como enviar. Liguei para a Daisy que me adiantou uma quantia, menos os tradicionais 20% – Um amigo meu (Pedro Lazaro) depositaria o valor numa conta de um de seus parentes (Pascual) em Miami e ela me adiantava os restantes 80%.
Um cubano também poderia enviar pela Western Union qualquer valor para Cuba. Americanos ou brasileiros não estavam autorizados. A tal hipocrisia que existe nas leis internacionais e entre a nossa humanidade.
Mais tarde recebi alguns valores através dos familiares do meu amigo Ozzy. A WU cobrava uns 17 dólares de taxa e eu recebia o valor inteiro. Por exemplo: se recebesse 500 dólares a WU me pagava os mesmos 500 dólares. Mas para trocar os dólares numa casa de câmbio o governo cubano cobrava 20% – Então 500 viravam 400. A princípio me senti roubado… com o tempo fui vendo a diferença nos preços. Se podia comer um prato de comida por um dólar – não seria assim tão mal. O problema era comer a mesma comida, gordurosa, todos os dias.
Logo depois descobri as frutas: bananas, abacaxis, mangas enormes (maravilhosas), fruta bomba (mamão), mamey, (papaya) – quase de graça. O Albertico me mostrou os mercadinhos que serviam a população. Como existem duas moedas eu procurava sempre os que vendessem em Moeda Nacional. Entrava numa fila (a casa de câmbio era uma espécie de trailer) na praça da Sorveteria Coppelia para trocar os CUC por Moedas Nacionais. Então funcionava assim: eu recebia o dinheiro dos EUA (via Western Union) em dólares, trocava recebendo 80% do valor em CUC e aos poucos ia trocando por moeda nacional – Um CUC valia 24 moedas nacionais.
A sorveteria Coppelia foi o meu primeiro ponto de referência – e todos os dias eu repetia: um dia ainda vou entrar numa destas filas. Como era o período de férias escolares, os adolescentes de todo o país iam tomar sorvete na Coppelia. Não entrar na Coppelia era como ir à New York e não conhecer o Central Park.
No cinema Yara (em frente à Praça da Coppelia) vi o meu primeiro filme: “Lysanka”, a história de uma guerrilheira cubana que se enamora de três pessoas diferentes: Um soldado russo, um companheiro cubano e um civil. Não sabia exatamente quanto valia e acho que dei uns três CUCs para a mulher da bilheteria. Ela me deu o ticket e não deu troco… Estava marcado $ 3,00 – Não sabia se era em Moeda Nacional ou em CUC. Mas mesmo que fosse em CUC seria uns 3 dólares – baratíssimo…
O cinema Yara me levou de volta à infância, na cidade de Quixadá, no Ceará, onde meu tio José Capelo, inaugurou no final dos anos 50, o primeiro cinema da cidade, batizando com o nome de Cine Yara.
Dia seguinte resolvi me aventurar sozinho por Habana. Caminhei 50 quarteirões. Sempre usando bermudas, de tênis ou sandálias japonesas. Por dia eu esbarrava entre 20 e 30 camisas da seleção do Brasil. Soube depois que na Copa do Mundo as praças se enchiam de milhares de torcedores pintados, vestindo as amarelinhas. Poucas camisas argentinas e uma ou duas européias…
Perto da casa da Daisy descobri a loja La Epoca. Em Miami, durante mais de 20 anos tive como cliente um cubano (Pepe) que anunciava no Globo e depois no meu jornal Florida Review. Era dono da segunda maior loja de departamentos no centro de Miami – E ele sempre me dizia que em Habana, a La Epoca (que pertencia à sua família) era a maior loja da cidade. De fato era monstruosa. Lógico que hoje foi desmembrada em pequenos negócios. O prédio ocupa todo um quarteirão – e ainda mantém o nome em letras enormes: LA ÉPOCA.
Na volta da casa da Daisy (no centro de Habana) caminhei pelo Malecon… Parei um pescador e disse que tinha 3 carretilhas uma Daiwa uma Penn outra Sheakspeare e dois molinetes Penn. Ele me disse que não seria difícil vender. Me deu o telefone e disse que assim que eu decidisse vender era só ligar para ele.. Já estavam então garantidos mais uns 500 ou 600 dólares – no caso de uma emergência poderia vender o meu equipamento de pesca. Nao vendi. Tinha também uma filmadora que no final descobri não valer nada – talvez pelo excesso de calor, alguma peça deteriorou e perdi (ainda não sei) um belo material.
Preço de uma passagem de ônibus: 1 peso em Moeda Nacional
Preço de uma corrida de táxi (local) – 10 pesos em Moeda Nacional
Preço de uma entrada no cinema: 3 pesos em Moeda Nacional
Preço de uma refeição (na caixinha): 24 pesos em Moeda Nacional (ou um CUC = um dólar)
Preço médio de uma refeição no restaurante chinês de Vedado: 72 Pesos em Moeda Nacional – ou seja 3 dólares.
1 CUC = quase um dólar = 24 pesos em Moeda Nacional
No Hotel Habana Libre descobri a minha primeira internet. Por dez CUC (dez dólares) comprava um cartão que dava direito a uma hora de uso. Muitas vezes a internet caía e todos paravam para descansar, ler algumas revistas etc. Como todos nós sabemos, Cuba é uma Ilha – e a internet poderia somente funcionar via satélite. Não existiam cabos de conexão. Algumas empresas como a Brascuba ou a própria Embaixada do Brasil conseguiam assessar um satélite do Canadá, mais rápido e mais barato.
Se eu pagava um dólar por uma refeição – com dificuldade – como pagar a internet? Os dias passaram e fui descobrindo os segredos de Cuba. No Hotel St. John, consegui uma internet por 8 dólares e ainda peguei uma carona na televisão assistindo a um jogo de volei – curti a vitória de um torneio internacional, com o Brasil 9 vezes campeão. Voltei à casa da Daisy para receber mais dinheiro que chegara de Miami. Ela me disse que para morar em Cuba (em definitivo), só casando. O que não seria difícil. Mas, após os meus 4 casamentos fiquei meio traumatizado e o melhor seria esperar…
O Hotel Habana Hilton (depois Habana Libre) foi inaugurado em março de 1958 – ainda sob o governo do General Fulgêncio Batista e com a presença de diversas personalidades internacionais. Entre elas o próprio Conrad Hilton. Na época foi considerado o maior e mais alto hotel da América Latina.
Em janeiro de 1959, quando Fidel Castro entrou triunfante em Habana o hotel virou o quartel-general (headquarters) dos revolucionários cubanos. Em 1996 o grupo espanhol Meliá assumiu o hotel com a associação do governo cubano. O novo hotel reabriu em 1997 oferecendo sempre muito conforto, diversas obras de arte, transformando-se então num dos mais famosos símbolos de conforto no país.
Mas, pagando 10 dólares pela internet (por hora) acabariam os meus dias de felicidade. Como viver sem internet? Será que realmente eu precisava da internet? Os primeiros dias foram terríveis.
Quase todos os dias comprava o jornal Granma por um peso em Moeda Nacional e pensava em pegar um ônibus (que também custaria um peso) para qualquer lugar, sem destino… Tinha medo que alguém me parasse e perguntasse – vai pra onde?
Não sei…
Um peso em moeda nacional equivalia a mais ou menos quatro centavos de dólar – 4 pennies…
Albertico precisou viajar para a cidade de Artemisa e já estava na hora de dar o meu vôo solo. Em Artemisa ele trabalhava no tal mercado informal construindo móveis. Era no meio do campo – talvez numa casa afastada, sem muito conforto mas com a segurança da informalidade. O sistema cubano (atual) não permite a livre iniciativa, o livre comércio. Ou seja, permite, com o estado sendo sempre o sócio majoritário.
À noite passei pelo Hotel Vedado (situado entre os hotéís Habana Libre e Nacional), desci umas escadas e entrei no restaurante El Cortijo. Bastante limpo, com garçons mais velhos e educados. Por 5 CUC (5 dólares) jantei uma sopa de vegetais e uma Pasta Carbonara. Estava delicioso. Foi a minha primeira refeição de luxo. Já começava a descobrir os segredos da Ilha…
E a música? eu não havia anunciado a todos que iria conhecer Cuba pela música? Até então só havia conhecido o som do desconhecido Yolo Bonilla na feira da Arte en La Rampa.
No meu primeiro sábado em Cuba fui com o Alberto para a feira livre na Avenida Salvador Allende. Ele mostrou as frutas, todas grandes. Sem muitas variedades – mas o que existia era real, sem enxertos, sem agrotóxicos, sem misturas. As mangas eram grandes, os mamões, os abacaxis… No final Alberto furou uma fila, pegou o maior mamão e ficou gritando para o dono da barraca quanto iria pagar. Perguntou três ou quatro vezes – antes da quinta, saiu da fila e fomos para casa. Saímos que nem duas crianças – correndo – ladrões de mamão… O acontecimento correu quarteirões e durante muitos dias ele me pedia para contar aos amigos como saímos da minha primeira feira livre, a minha primeira “aventura” em Cuba…
Domingo saí cedo e fui sozinho a Coney Island. Peguei o ônibus número 1 – paguei um peso em moeda nacional – me sentindo até meio culpado em não sendo cubano, pagar um ônibus tão barato – conheci uma jovem mineira, estudante de medicina, que tentava conversar com o namorado num portunhol. Me apresentei e ela ficou super feliz. Perguntei onde era a praia. Ela disse: aqui tudo é praia. Esqueceu o namorado e só conversou comigo. Falava alto e todo o ônibus calou para escutar a brasileira. Era a fase da tal novela “ A FAVORITA”.
O nome Coney Island sugeria um parque ou uma praia. E de fato era um grande parque e a minha primeira praia em Cuba. Horrível. Pequena, suja e cheia de pedras. Na esquina ao lado do parque de diversões um enorme circo. Afinal eram as férias escolares e todo mundo ia para Habana para se divertir. Os ônibus, super-lotados.
Dia seguinte voltei à praia – No ônibus conheci outra estudante de medicina – a paulista Ana Cristina. Estava mudando para a praia de Baracoa. Falei do meu problema de estadia – que tudo era caro – para mim… ela me deu o telefone e disse para ligar. Muitas amigas estavam precisando alugar espaços em Repúblicas e seria legal ter um brasileiro. Até pensei em mudar para uma República de estudantes de medicina. Poderia me dar grandes novas histórias… Mas aos 63 anos de idade?
Voltei para casa mudei de roupa e finalmente fui tomar o meu primeiro sorvete na Coppelia. Esperei uma hora na fila. Eram umas cinco ou seis filas ao redor da enorme praça. Todos os dias eu passava em frente mas não criava coragem de encarar tanta gente. Em cada fila existia uma inspetora para orientar os clientes. Ela ia chamando por número de espaços vazios. Como eu estava sozinho não foi difícil. Muitas pessoas esperavam até por mais de duas horas – numa chuva torrencial ou no sol mais abrasador do Caribe…. Valeria a pena? Quando sentei, olhei em volta para saber como funcionava o serviço… pedi um sorvete de baunilha. Vieram três bolas com um biscoitinho (ao melhor estilo italiano) ao lado e um copo d’água. Em pouco tempo engoli as três bolas. Logo depois pedi um de manga e a seguir um de coco. A sorveteria era dividida em diversas casas rodeadas por árvores. Ficaria ali para o resto da minha vida tomando aquele marvilhoso sorvete. E o preço? 5 pesos em Moeda Nacional…Gastei no total 15 pesos – uns 70 centavos de dólar.
Ainda “gelado” caminhei até o cinema Infanta – a meio quarteirão de casa – começando então a maior fase de cinéfilo. Eram seis confortáveis salas com um ar condicionado super moderno. Por 3 pesos em Moeda nacional (doze centavos de dólar), assisti ao filme russo HERÓIS DO FUTURO. Sai do cinema com fome e caminhei até a rua 23 – conheci o Mandarim, um restaurante chinês que também cobrava em Moeda Nacional. Por 72 pesos em moeda nacional (3 CUC) tomei uma sopa, comi um pork sir loin acompanhado de coca-cola e sorvete. Tudo por menos de 4 dólares.Voltei ao cinema e vi o filme coreano O ETERNO GUERREIRO, uma comédia com mensagens educativas. Voltei para casa, comi um abacaxi inteiro e mergulhei no livro; San Isidro 1910 – Alberto Yarini e sua Época.
Não querendo entrar na intimidade das senhoras na sala, sem intenção de interromper a próxima novela da Globo, eu me recolhia ao quarto para meditar. Um dia pedi à Ana (sobrinha da Deusa) um livro qualquer. Ela entrou no meu quarto e de cima do quarda-roupa retirou um empoeirado livro escrito por Dulcila Canizares: San Isidro 1910 – Alberto Yarini e sua Época.
Olhei o livro sem muita vontade. Achei pequeno, mal diagramado, sem muitos apelos gráficos. E um livro com depoimentos de pessoas absolutamente desconhecidas. Era sobre um cubano que eu nunca ouvira falar. Mesmo assim – nos implacáveis dias das chuvas de verão, a saída era ler.
Com o tempo fui me interessando pela história e a vivenciar a trajetória do famoso proxeneta. Andei à pé pela rua San Isidro a antiga “zona” de Habana Vieja. A cada casa ia lembrando das histórias e como num filme, fiz o meu próprio.
Como deveria ser de fato Alberto Yarini? Um galo de briga? um gigolô, um amante, um dandy? político, herói popular, filho da alta sociedade? o que levou Alberto a viver uma vida entre as putas de Habana? E como foi de fato a sua morte? Foi assassinado (em emboscada) pelo rival francês, o Messieur Letot?
Soube mais tarde que fizeram um filme sobre a vida de Yarini e que este ano de 2010, marcava a centenário da morte do ilustre cubano.
Uma das primeiras coisas que mais me impressionaram em Cuba foi o respeito pela fila. Não existia propriamente uma fila. As pessoas iam chegando e perguntando:
Ultimo?
A princípio eu não sabia como funcionava e acabava sendo literalmente o último. Mas depois fui aprendendo a gritar: ÚLTIMO. Eu só tinha que marcar qual a pessoa que estava na minha frente. O resto não importava. Fui a muitas filas diferentes, muitos lugares e – em todas existia o respeito pelo ÚLTIMO! Na fila da casa de câmbio na Praça do Coppelia, a mesma coisa: ÚLTIMO!
Na fila do cinema Infanta, aconteceu uma aglomeração grande para ver a programação estampada num quadro afixado na parede (da calçada). No início, não foi possível se criar uma fila. Então as pessoas começaram a chegar e a discutir quem havia chegado primeiro – absolutamente todos os direitos foram respeitados. Entre eles, sem a necessidade de se chamar a polícia ou coisa parecida. Pela primeira vez vi a potencialidade do povo cubano em relação à política e aos direitos humanos.
No caminho para a praia de Coney Island em Miramar vi um letreiro de um super mercado. Então anotei o endereço e dia seguinte voltei – de ônibus – para conhecer o meu primeiro super-mercado. Ficava na Terceira y 70 – ou seja na Terceira Avenida com a rua 70.
Comprei grão de bico (garbanzos), papel higiênico, 2 latas de coca-cola, feijão preto, lentilha, arroz branco, carne moída. Não me atrevi a comprar carne de vaca ou linguiça (chouriço) – O preço do chouriço era de 16 dólares o quilo.
Voltei de ônibus, deixei as compras em casa e fui no mercadinho da esquina comprar frango, água mineral, 4 mangas, alho e cebola.
Aí a Ana (sobrinha da Margarita) entrou na cozinha e preparou uma fabada (grão de bico) deliciosa. Após o jantar voltei a ler o livro sobre a vida do Yarini. Mais tarde saí do quarto e fui assistir ao Comandante (na TV) numa mesa redonda com o tema: A VITÓRIA ESTRATÉGICA. Fidel falava sobre a iminência de uma guerra nuclear – na roda, a presença de um pastor americano, um padre da igreja católica e do cantor Silvio Rodrigues.
Dormi maravilhosamente bem – a fase era boa: barriga cheia, lendo um bom livro, sem barulho de brigas, de vizinhos chatos, sem guerra, sem tráfico de drogas, sem tiros ou assaltos… sem televisão alta, sem remédios modernos, pastilhas de alegria, de sono, de amor, de tesão… nada… sem neuroses familiares, sem buzinas… Barulho só o da chuva, que me encantava, lembrando o telhado de minha antiga casa em Ipanema, no Rio de Janeiro.
Acordei às 10 da manhã, coloquei o tênis e fui para Habana Vieja. Peguei a guava (ônibus) de número 27 que me deixaria perto da Embaixada do Brasil. Muito calor, quase insuportável. Na Calle Lamparilla um imponente edifício (Lonja Del Comercio) abrigava a Embaixada e o Consulado do Brasil. No primeiro andar uma outra representação diplomática do México e no pátio interno dois elevadores de vidro com visão panorâmica. Por fora, a idade do edifício e a sua história não combinavam com a arquiteura interna: moderno e super seguro. Nas duas entradas do prédio, filas para diferentes departamentos. Cada pessoa deveria – ao entrar – se dirigir a um balcão, se identificar e dizer o motivo da visita. Depois era anunciado por telefone a ida de cada visitante.
Quando chegou a minha vez eu disse: sou brasileiro e preciso ir ao consulado. Eles perguntaram: para quê ?
Somente para me apresentar como brasileiro.
OK.
Então entrei no prédio e vi no diretório um escritório de direitos autorais de Cuba. Ainda pensando na biografia de Stevenson, que poderia me dar uma permanência no país, subi. Entrei, me identifiquei e perguntei quem era a pessoa responsável pelo departamento. Veio uma cubana carismática, bonita e saudável. Aparentava uns 40 anos. Me levou ao seu escritório e perguntou em que poderia me ajudar. Eu disse que gostaria de escrever a biografia do Teófilo Stevenson e precisava de uma orientação. Ela me disse que aquele escritório era de direitos autorais de música. O de livros ficava na praça das armas. E que eu quando me encontrasse com o Stevenson dissesse a ele que ela era a Lupe, filha do Coronel Luiz Perez (El Polaco). O pai deveria ser alguém importante no partido. Falei do desejo de fazer uma grande feijoada e que ela, com certeza, seria convidada.
Como já era a hora do almoço, a Embaixada estava fechada…
Então parti para a Plaza de Armas buscando o outro escritório (Instituto de livros) de Direitos Autorais. Estava em reformas, mudou (provisioramente) para a Rua O Bispo, disse um inspetor. Lá me informaram que para lançar um livro deveria ser com a custódia, produção e direitos do Instituto. Melhor seria lançar no Brasil e enviar parte dos direitos para Cuba.
Voltei a Embaixada e no quarto andar, uma funcionária me informou o nome do responsável. O novo embaixador ainda não havia tomado posse e o Ministro Vilmar Coutinho era o atual encarregado de negócios. Se eu não conseguisse falar com o Ministro, o Adido Cultural Albino Poli Junior me atenderia.
Era uma sexta-feira. Deixei o meu telefone e pedi que ele me ligasse.
Saí da Embaixada com uma curiosidade imensa. Pela primeira vez estava vendo a parte reconstruída da cidade, os tombamentos históricos. Cada metro quadrado de Habana Vieja daria para escrever muitos livros de história. Por todos os lados, pessoas das mais variadas nacionalidades: em grupos, sozinhos, mochileiros, turistas cubanos de outras cidades, jovens estudantes e milhares de europeus. Na Rua Mercaderes 107, escutei o som brasileiro da Garota de Ipanema. Entrei no bar/restaurante Las Infusiones, uma casa antiga com pátios e jardins internos. Ao canto um pianista executando a “Garota”. No cardápio mais de uma dúzia de cafés diferentes… Irish coffe, punch coffee, mocha, cappuccino, variando entre 1.50 CUC e 4.50 CUC. Na parede (pintado à mão, em português) uma única frase… enorme – em letras garrafais: SOBRE A NUDEZ FORTE DA VERDADE O MANTO TASIA (Eça de Queiróz). A sensação de ter a minha mãe mais uma vez caminhando ao meu lado. Desde muito pequeno escutava ela repetir esta frase do livro A RELÍQUIA, de Eça de Queiroz.
Quando morei em Lisboa, subindo em direção ao Rocio, perto do Consulado do Brasil, vejo numa pracinha uma estátua de Eça, a mesma frase incrustrada numa pedra e imeditamente lembrei de minha mãe. Em Habana Vieja, também perto do consulado, a mesma sensação.
Já quase chegando na rua O Bispo parei para descansar. Vi uma mini-praça cheia de árvores, sentei num banco, tirei o tenis para refrescar e fiquei observando os lixeiros que com as suas enormes vassouras faziam um trabalho mecânico, coordenado… todos alegres, catando as folhas e o lixo que a chuva deixou pelo caminho. Como pode um lixeiro estar tão feliz? Será que estavam em drogas?
Uma hora depois levantei e continuei a minha caminhada perguntando onde ficava o La Floridita. Era na mesma rua O Bispo, que eu já conhecia do Instituto do Livro. A cada quarteirão um novo restaurante, um museu, uma livraria, uma música. Cada pessoa era motivo para uma foto, uma conversa. E a alegria das pessoas? De onde vinha? Não é uma ditadura? Não matam pessoas nos paredões? Não sacrificam o povo, exploram ? Porque tanta alegria? E eu não tinha uma única máquina fotográfica. Pela primeira vez na minha vida fui a um país sem máquina fotográfica. Existem coisas que não se explicam. E esta, por mais que eu tente encontrar uma resposta, não encontro. Tinha uma filmadora velha e que sempre deixava em casa – com medo de ser roubado. Afinal Cuba me foi pintada como um lugar perigoso, cheio de inspetores de polícia, espiões, esquadrões de fuzilamentos, de prostitutas, de comunistas malvados e de ladrões.
No início dos anos 80 conheci dois bares “cubanos” em Miami; o La Bodeguita Del Medio – que ficava num sub-solo na Flagler Street e o El Floridita. Em Habana tinha que conhecer os verdadeiros – os dois bares que o Papa Hemingway frequentava.
Na porta do Floridita um cubano de barba branca vestido ao melhor estilo Hemingway. Dentro, os preços para turistas me afastaram correndo… qualquer bebida custava no mínimo 4 CUC – ou seja 4 dólares. Costumo dizer que nada é caro – quando se tem dinheiro…. nada é caro. Além do mais a cena me levou de volta ao Garota de Ipanema. O Bar Veloso, no Rio de Janeiro, se transformou num ponto turístico – perdendo um pouco das características da época. Turistas do mundo todo iam ao Veloso só para tirar retrato, pagando caro. Tive a mesma sensação no La Closerie de Lilas, o bar na Boulevard Montparnasse, em que Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir frequentavam em Paris. Paguei caro para sentar na mesma mesa, tomar os mesmos calvados…
Como achar 4 dólares caro se gastei 300 dólares num brunch em NYC ou 400 dólares num jantar em The Haig (Haia), na Holanda?
Até poderia ficar no Floridita. Mas preferi andar pelos menos famosos e conhecer mais de perto a verdadeira música.
Voltei para casa à pé. Não acreditei quando cheguei e contei (no mapa) todos os quarteirões que andei: 90.
À noite, uma grande felicidade. Era uma sensação estranha – como há muito tempo não sentia. Tinha 23 dólares no bolso, a geladeira cheia. Comia fabada, mini-feijoada, lentilhas e muitas frutas… Como podia estar tão feliz com tão pouco? Dormi cedo e acordei às 2: 30 da manhã. Corri para o livro do Alberto Yarini. Aquela altura já estava completamente familiarizado com a vida do meu novo personagem e vivia intensamente as suas aventuras. Matei o livro na mesma noite.
No domingo os amigos do Alberto alugaram um ônibus por 600 pesos em moeda nacional (mais ou menos 25 dólares) para ir à praia. Cada um de nós pagou em adiantado pouco mais de um dólar (30 pesos (MN) – Tinha que estar às 6 da manhã na porta da casa deles. Como não havia dormido, cheguei – meio contra vontade – às 5 horas. Esperei até às 7 da manhã e não apareceu ninguém. Um vizinho fofoqueiro passeando com um cachorrinho disse: Quase impossível que algum deles apareça. Foram dormir de madrugada, todos bêbados.
Voltei para casa, dormi até às 10:30 fui ao hotel Nacional para ver as notícias na internet. Esperava ansiosamente um dinheiro do Brasil. O Nacional era mais caro mas a internet era mais rápida. Soube então que o dinheiro já havia chegado em Miami. Era só uma questão de tempo . Caminhei até a rua 23, em Vedado, e descobri um lugar que vendia suco de frutas (batido) a 5 pesos em moeda nacional – ou seja cada suco de manga ou de mamão custava 20 centavos de dólar. Comi um tamale acompanhado de três copos de variados sucos de frutas. Atravessei a rua e fui conhecer uma feira de livros itinerante, em frente à uma enorme estátua de ferro (escultura) de Dom Quichote de La Mancha. Achei um livro de uma brasileira escrito em espanhol: “Nuestros años en Cuba”, de Marília Guimarães e um outro de Alipio Guzman Perez “Através Del Atlântico”. Os dois livros custaram menos de 50 pesos (dois CUC – ou dois dólares) .
Como estava perto da Praça da Coppelia fui trocar mais CUCs por Moedas Nacionais. Já começava a viver como cubano, a usar mais moedas nacionais e a pagar mais barato por todos os produtos. Na fila da casa de câmbio um senhor cubano, dizendo em voz alta que acabara de chegar de Miami. Quase me identifiquei também dizendo que era da Flórida – Foi quando ele, na fila, comentou em voz alta: “OS PRIMEIROS 50 ANOS TIVEMOS DIFICULDADES DE CRESCIMENTO E NOS PRÓXIMOS 50 ANOS VAMOS TER CRESCIMENTO DAS DIFICULDADES”. Muitos olharam de cara feia para o velho que, sem aplausos, ficou quietinho e calou. Eu fiquei na minha e nem olhei para o velho.
Voltei para casa, caiu outro pé d’água e aproveitei para ler o livro da Marília Guimarães, “Nuestros Años en Cuba: Un Exilio Entre Sinsontes y El Sabiá”, uma brasileira, que nos anos da ditadura, havia sequestrado um avião brasileiro rumo à Cuba e que viveu no exílio 9 anos, em Habana.
No livro ela revela desde a sua chegada no dia 4 de janeiro de 1970, com os dois filhos foi para o Hotel Nacional e depois conseguiu uma casa em Miramar, o primeiro bairro que me aventurei sozinho em Habana. Aprendi muitas coisas interessantes sobre Cuba. Principalmente como brasileiro, vivendo quase que os mesmos lugares descritos no livro – e ainda lembro de algumas frases de Miriam (apelido que usava na época da ditadura), como esta, que para sempre guardarei: TODOS LOS AMORES, SI VERDADEROS, SON ETERNOS, INCOMPARABLES. O cantor Silvio Rodriguez conviveu com a escritora e até hoje mantém forte amizade, dizendo que do muito que aprendeu sobre o Brasil, deve a Marilia: sobre a culinária brasileira, a música, o idioma. Em novembro de 1976, graças às traduções (para o português) de Marilia, ele pôde levar as suas canções para Angola.
E o Comandante Fidel, quando a encontrava dava sempre uma gargalhada pedindo que ela repetisse a história: No México se toma tequila, na Russia se toma Vodka, em Cuba Ron e no Brasil? Todos esperavam que ela dissesse; Pinga! e Fidel caía na gargalhada…
Num trecho de uma entrevista ela revela alguns dados sobre o livro que transcrevo na integra:
La distancia del corazón
Esos primeros años de la década de 1970 fueron muy difíciles, pero había un amor inmenso, una fuerza interior gigantesca. Es que la Revolución al cambiar las estructuras duras del capitalismo hizo que el hombre fuera más tierno. Fue Cuba la que le enseñó al mundo el significado de la palabra solidaridad; la solidaridad como postura de vida. Ese es uno de los grandes logros de la Revolución Cubana. Ese hombre nuevo del que habló el Che ya nació, ya existe. Por eso me dije: tengo que hacerle un homenaje a la Revolución, al pueblo cubano, tenía que hacerlo, porque el exilio para muchos es muy duro. No diré que fue fácil para mí. No lo fue. Porque, además de la física, existe otra distancia, que es la distancia del corazón. No tienes cómo llenar esa falta del olor de tu tierra, del olor de tu mar, de la luna, de las estrellas, porque el hombre es físico, es pura electricidad.
Le debía eso a la Revolución Cubana, a los cubanos, pero también al mundo, tan desinformado sobre esta maravillosa Isla, engañado por tanta propaganda injusta. Por eso este segundo libro que decidimos nombrar Nuestros años en Cuba. Un exilio entre el sinsonte y el sabiá. El exilio es complicado, duele, uno sufre por más que tengas el respaldo del pueblo cubano, que no tiene límites.
Quería escribir sobre aquellos complejos primeros diez años de la Revolución Cubana, los de reafirmación. Cuba es una isla, no un continente con recursos que se pueda mantener sola, por eso el bloqueo siempre ha sido infame. Sin embargo, el mundo asiste a eso sin gritar. El mundo debe gritar y gritar y gritar. El bloqueo es inadmisible, y mira cuántos años lleva, a pesar de las brechas abiertas. El mundo no sabe que en los 70 Cuba lo tenía todo para convertirse en el mayor productor de azúcar del planeta, pero eran incendiados los cañaverales, se secuestraban a los pescadores, se hacían atentados… El mundo no lo sabe a pesar de que Cuba es más famosa que la Coca Cola. Hay personas que han tenido la osadía de preguntarme si en Cuba hay artes plásticas. ¡Ja! Ay, caramba, ¡qué ignorancia! La gente necesita saber que esta Revolución es grandiosa.
Pensei em enviar um e-mail para ela (que hoje vive no Brasil) dizendo que havia comprado o livro numa livraria de Habana e que pagara 24 pesos em Moeda Nacional. Um dólar. E que estava adorando conhecê-la desta forma.
Lembrei de uma mulher que me enviou um e-mail dizendo que comprara o meu livro TATUAGENS num sebo de Cascadura, no Rio de Jnaeiro e que pagara 5 reais (uns 3 dólares) e que estava curtindo muito o livro. No final descobri que eu havia oferecido aos meus cunhados (no Brasil) e acabou onde acabou. Dei muitas risadas…
Na segunda-feira de manhã, a secretária da Embaixada ligou e disse para a Margarita que o Embaixador do Brasil queria falar comigo. À tarde liguei e marcamos para o dia seguinte. Na embaixada, a maioria dos funcionários cubanos, muito educados e sorridentes. O Ministro Vilmar me atendeu muito educado – Vestia uma guaiabeira no melhor estilo caribenho. Falei rapidamente sobre a minha vida e ele me perguntou o que eu fui fazer em Cuba.
Tinha que pensar rápido. nem eu mesmo saberia responder…. Nestes encontros eu não costumo me programar. Simplesmente abro o coração e falo o que me vem na telha.
Afinal, o que eu fui fazer em Cuba?
Primeiro vim conhecer a Ilha. Segundo, que estava em entendimentos com o Stevenson para escrever a sua biografia e terceiro que seria uma excelente ideia trazer o BRAZILIAN FILM FESTIVAL e o pessoal da Inffinito para Cuba. E finalmente pensava em fazer uma feijoada. Autografei meus livros para o Ministro, trocamos telefones e combinamos uma outra reunião. Na próxima ele iria enviar um carro com motorista me pegar em casa. Neste meio tempo deu o telefone do Alvaro Carvalho (baiano) da Odebrecht (COI) e o do Antonio Nascimento (paulista) da Brascuba, a primeira empresa brasileira de Cuba. Enquanto falávamos, o telefone tocou. Era Ramiro Valdés, o lider revolucionário, braço direito do Fidel confirmando a presença na feijoada de sábado na casa do Ministro. Na realidade a feijoada era para o Valdés e Fidelito – Fidel Castro Diaz Balart (filho de Fidel Castro e primo do Deputado Diaz Balart – de Miami).
Em relação à nossa feijoada disse que seria uma boa ideia trazer uma personalidade de Miami para começar um intercâmbio entre as duas cidades. A Embaixada cuidaria dos convites, entraria com alguns produtos e daria um suporte logístico.
Voltei para casa descansei e fui bater ponto no Cinema Infanta. Assisti um filme americano horrível. Saí na metade. E pela primeira vez notei uma observação do Ministro Vilmar. Ele falou para eu reparar nos filmes… na velocidade dos filmes. Naquela semana o Ministro assistira em sua casa, com a esposa, um filme na televisão de Habana com a Sandra Bullock – filme que entrava naquele mesmo dia em cartaz nos cinemas do Brasil.
Dia seguinte liguei para o Antonio Nascimento, da Brascuba. Ficamos mais de meia hora ao telefone conversando e marcamos para o dia seguinte. Ele mandou um motorista me pegar em casa, num super carro com ar condicionado. Os amigos e vizinhos começaram a desconfiar da minha presença. Um deles me perguntou se eu era da interpol.
No caminho, com o motorista mostrando a região, escutei no rádio do carro Lulu Santos cantando em espanhol:
A ti mesmo, agora…
Ay tanta vida la fuera
como una ola en mi mar…
Chegando na Brascuba, uma associação entre as empresas Tabacuba e a Souza Cruz, me apresentei e segui o motorista que me levou até a sala do Antonio Nascimento – Localizada na Calle Reyes entre Infanta e Princesa, a fábrica cresceu 16% nos últimos anos, produzindo cigarros com um percentual de 25% para exportaçào e 75% de consumo interno.
Antonio, um jovem e moderno empresário com fácil acesso aos altos escalões do governo, discorreu sobre a atual situação política, dando suas opiniões sobre a transição do governo e as soluções imediatas para a crise. Disse que a Brascuba foi criada graças ao incansável trabalho de Adolfo Dias, ex-Ministro da Agricultura (já falecido), que durante 10 anos lutou para a criação da primeira empresa mixta do país. Existem outras empresas brasileiras (sócias do governo) como a Nestle, a Odebrecht – mas no sistema de empresa mixta, a Brascuba foi a primeira.
“Uma das preocupações do partido, onde o governo deve atuar imeditamente é na consolidação da moeda. Não é possível existirem duas moedas. Cria-se uma grande confusão, sem falar no alto custo de administração”, declarou Antonio.
Ele me revelou que 20% do que era produzido pelo país ia para a “libreta”. Ou seja, cada fumante teria direito em sua cota mensal de alimentação (?) uma quantidade de cigarros (grátis), 70% eram vendidos para o mercado interno e 10% era a fatia da Brascuba. Em outras palavras, a Brascuba fabrica, distribue e vende 10% de todos os cigarros do país. E deste total de 10%, eles exportam 25% e vendem para o consumo interno 75%.
Quando caminhei pela fábrica, observei uma plaquinha anunciando um Departamento de Marketing, coisa que (na minha cabeça) não combinava com o sistema. Antonio disse que sim, de que os cigarros deveriam ter uma apresentação melhor, um design melhor… Foi quando observei que o livro (peça promocional) de aniversário de 15 anos foi criado e produzido pela agência DPZ de São Paulo. A festa dos 15 anos da Brascuba teve a presença do Presidente Lula e do nosso amigo, Ministro Helio Costa.
“A economia cubana gera medicina, turismo, cana de açúcar, niquel, petróleo e tabaco – e é no setor de cigarros que nós entramos” finalizou Antonio.
Muito simpático prometeu participar e colaborar na primeira feijoada do Chico Moura de Cuba e ainda ofereceu o serviço de seu motorista para futuros encontros.
Voltei para casa (no carro com motorista) com os amigos esperando na porta e já desconfiando: quem era este estrangeiro que chegou aqui sem dinheiro e já tem estas mordomias todas???
Dia seguinte fui conhecer a Odebrecht – que em Cuba leva o nome de COI. O escritório Central está localizado num dos melhores endereços de Habana: Miramar Trade Center, no elegante bairro de Miramar.
Alvaro Carvalho também me atendeu super bem. Relembramos momentos e pessoas de Salvador, na Bahia, como os amigos Sergio Bezerra, do Restaurante Habeas Copus e das jornalistas Cristina e Nilza Barude. Falei da minha saudade de Salvador, onde fui durante algum tempo gerente do Jornal O Globo. O baiano me falou da construção que a Odebrecht fazia no porto de Mariel, o segundo maior porto do País. Perguntei como funcionava a coisa da grana. Ele me disse que o pagamento vinha do governo brasileiro, não sendo preocupação para ele ou seus funcionários lidar diretamente com o sistema cubano. A todos eu perguntava se gostavam de Cuba. E todos os brasileiros me respondiam que, se pudessem, viveriam para sempre no país. Alvaro tinha experiências internacionais. Já havia trabalhado em Angola e diversos outros países.
Fui para casa pensando no Porto de Mariel. Era o local favorito de pesca do Papa Hemingway. Daí fiz a associação ao nome de sua neta, a atriz Mariel Hemingway – uma homenagem à praia de Mariel.
Para a criação da primeira feijoada eu já contava com o apoio da Embaixada do Brasil, da Brascuba e da Odebrecht. Voltei para La Arte en La Rampa e assisti a uma apresentação de grupos folclóricos (danças) de diferentes regiões de Cuba. Crianças e adolescentes de 8 a 16 anos em perfeita harmonia – igual aquelas danças chinesas onde não se vê um erro na sincronia. No caminho de casa reparei nos ares condicionados de uma casa com a marca LG, depois fui observando – todos os ares condicionados de Cuba eram da Marca LG – absolutamente todos. Acho que coreanos…
Fui jantar no Restaurante Mandarim e por 55 pesos – em Moeda nacional (pouco mais de dois dólares) comi um cerdo agridoce com uma limonada.
Dia seguinte voltei à Embaixada para conhecer o adido cultural (Poli Junior) e combinar uma ida ao ICAI – O instituto de Cinema de Cuba. Na ocasião perguntei porque todos eles vestiam guaiabeira (uma espécie de camisão comprido, cheio de bolsos) . O Ministro me disse que em todo o Caribe era considerado um traje elegante, substituindo o terno. Desci com fome e fui procurar um restaurante. Conheci o Bodeguita Del Medio, tomei um tradicional mojito por 4 CUC (4 dólares) e olhei o cardápio. De novo, nada é caro… eu é que estava sem dinheiro – O prato mais caro do Bodeguita Del Medio custava 13 dólares. Andei pela Rua O Bispo e conheci a Iani e Inauska, dois nomes russos, herança de uma geração. Elas eram vendedoras de quadros e quase comprei uma gravura da Bodeguita. Me convidaram para dançar, para sair e conhecer Habana… Duas jovens bonitas e modernas… Tudo aquilo que não imaginamos de Cuba.
Depois entrei no restaurante La Luz, que tinha pinta de cobrar em Moeda Nacional. Perguntei qual o prato do dia: Pollo assado com purê, arroz blanco e frijoles. Uma comida caseira meio sem gosto – Com sobremesa e um refresco – tudo por 22 pesos – em moeda nacional. Não acreditei – perguntei mais de uma vez se a conta estava certa. Sim 22 pesos – ou seja, menos de um dólar (menos de um CUC).
Ao chegar em casa dei de cara com uma figura super simpática. Julio era um cubano que foi criado pela avó da Margarita e com o passar do tempo acostumou a jantar diariamente na casa das senhoras. Virou parte da família. Foi exatamente no dia que fiz uma mini-feijoada, sem paio, sem carne seca, sem laranja, sem couve, sem farinha e sem orelha … O resto consegui a duras penas…Mas Julio comeu muitas e muitas vezes, com um grande apetite.
Há 40 anos trabalha no porto de Habana sendo responsável pelo almoxarifado – carregava sempre muitas chaves. Corre uma história em Habana que, quando tinha 9 anos de idade, comeu tanto que acabou indo dormir num navio cargueiro. Quando acordou estava em Tampa, no estado da Flórida. O navio seguiu para New Orleans e milagrosamente ele sobreviveu (adotado) por um ano nos Estados Unidos. Julio declarou o seu amor por El Comandante e me confidenciou que o barbudo no fundo, tinha suas diferenças com o Che. Disse que Che Guevara falava muito e perturbava a cabeça do Fidel.
Juntos assistimos um programa de TV com a Lynn Milanés cantando músicas de seu pai – o maravilhoso Pablo Milanés. E a cada artista que aparecia na TV, Julio contava uma história. Ao final de cada frase ele repetia êh; Silvio Rodrigues es un gran cantante êh, Vamos a escuchar El Comandante êh. Muy buena êh esta suya frijolada êh. Semana que viene êh, El Comandante êh, cumple 84 años êh.
Fui me acostumando ao horário de Julio, que chegava religiosamente às 19:15 para jantar, ver televisão e contar histórias… Era também o horário que Luis Enrique – O Uicho vinha namorar. Tinha 18 anos e namorava a Ana que já era mãe (de uma relação anterior) aos 23 anos. Uicho era um poeta – Amava profundamente a Ana. E era compositor de músicas no estilo regaton. Eu prometi levá-lo ao escritório de direitos autorais cubano para conhecer a Lupe.
Fui para o meu quarto e terminei o livro da Marilia Guimarães.
O amigo Ozzy, de Miami telefonou me dando o endereço de seus tios em Jaimanitas. Dia seguinte fui conhecer a Marina Hemingway e El Cajon de Jaimanitas. Ao chegar senti o cheiro do mar com mais intensidade. O entreposto de pesca quase em frente ao complexo onde morava o Comandante, Ramiro Valdés e outros figurões. O cheiro me levou para muitas praias onde fui extremamente feliz.. Alguns cheiros têm de fato um poder especial de transportar pessoas para lugares diferentes. E naquele exato momento eu estava em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.
O tio Felix, Vivian e Carmen Nuovo me atenderam como todos os outros cubanos, com uma simpatia fora do comum. Por todos os lugares que eu andava era bem recebido. Será que eles eram assim com todo mundo? Felix Nuovo seria uma opcão de receber dinheiro via Western Union – que mesmo o sistema me tirando 20% seria mais vantajoso. Pois poderia sempre guardar em notas de dólar – Houve uma época que cubanos não podiam andar com dólares no bolso – Alberto foi preso durante 3 anos porque, quando voltou da guerra de Angola, tinha 50 dólares no bolso.
Dia seguinte voltei para Jaimanitas. Pela manhã caminhei ao redor da praça da Copellia buscando um ônibus – Já no ponto, um malandro chegou perto e disse que tinha tabaco. Obrigado eu não funo. Quando chegaste? Eu respondi – Quando chegaste? Qual o teu nome? eu disse : qual o teu nome? olhando duro no olho dele e aproximando a minha cara da dele. Por dentro, um certo medo com arrepios na espinha. Desde muito pequeno pressinto quando vou ser assaltado ou quando uma pessoa quer se aproveitar de alguma situação. É uma coisa que (acho) já nasceu comigo. E aprendi que se deve enfrentar estas situações como um cachorro vira-latas… Os bandidos sentem na adrenalina o medo das suas presas. O malandro chegou para me assaltar, pegar alguma coisa e sair correndo. E eu a princípio fiquei com medo, mas quanto mais ele perguntava mais eu respondia (repetia) com as mesmas palavras e acabei enlouquecendo a cabeça dele. No final ele saiu correndo e de longe mandou um dedo gritando para eu me foder…. Resolvi pegar um táxi – afinal custava somente 0.40 centavos de dolar até Miramar e mais 10 pesos (mais 40 centavos) para Jaimanitas. Com a história do malandro, a minha fase de andar de ônibus (que custava um peso) estava quase acabando.
O tio do Ozzy (Felix) me levou para conhecer uma casa de dois quartos, sala, cozinha, banheiro e uma varanda com cadeiras de balanço. O acesso era meio complicado – mas a paz era total. Combinei com a senhora que pagaria 250 dólares por mês de aluguel e ela deu a palavra que guardaria o imóvel.
De lá caminhei para a Marina Hemingway. Existiam dois complexos turísticos para visitação pública. Um que custava 25 CUC (25 dólares) – para passar o dia, com direito a almoço e tudo relacionado a esportes marítimos. Do outro lado do canal pude ver a ostentação, os barcos, os apartamentos de luxo. Gravei algumas imagens para mostrar aos amigos, um outro lado de Cuba.
Preferi entrar num outro complexo que custava 3 CUC (três dólares). Com piscina, carramanchões e alguns chalés com lojinhas e marinas para barcos e pescadores., Tudo rodeado de muito conforto mas simples . Logo encontrei um carramanchão ao melhor estilo cearense, protegido com aquelas nossas palhas brasileiras dando uma sombra maravilhosa. Chamei o garçon e pedi uma cristal. Cada uma custava 1 dólar – lembrei que em todos os lugares a cerveja era tabelada : Um CUC = 1 dólar. Tomei duas e caminhei até uma escada que levava para uma cachoeira que escorregava para uma piscina natural – no mar – Nadei até uma bóia flutuante e umas meninas disseram : muito bom ! Você nada muito bem!
Meio envergonhado disse: Gracias. E voltei para o meu carramanchão. Em menos de 5 minutos uma delas caminhou em direção à minha mesa e ficou parada esperando algum convite. Como não falei nada, disse: Hoje é o aniversário da minha tia. Você quer sentar lá conosco? Lógico! Tomei mais uma cristal e paguei 4 cervejas para o grupo. As quatro mulheres então começaram um jogo para ver quem ficaria com a presa. Eu me sentindo um sultão… cheio de convites. E já começando a entender melhor a fama das cubanas… A mais nova tinha 15 anos – mas parecia uma mulher – Era de uma beleza incomparável. Um olhar maduro, sensual – o corpo perfeito e só abria a boca para dizer coisas bonitas – Ela foi logo me convidando para sair à noite e conhecer uma banda local. Fingi que não entendi direito. A pior coisa que poderia acontecer era de, aos 63 anos eu me apaixonar por uma mulher de 15.
À noite fui na casa do Alberto que me recebeu com um copo de Ron na mão. Depois fomos ao TAPA , um bar exclusivamente para universitários – todos do partido. Um turista normalmente não entra neste bar e eu só entrei porque eram férias escolares e porque estava com o Alberto. Ele me confidenciou algumas coisas (alguns segredos do sistema) e ficamos mais amigos. Daí fui (sozinho) pela primeira vez, às 23:30 h. assistir a um jazz no “La Zorra Y El Cuervo”. Naquela noite se apresentava Alexis Bosch Y su Quinteto – Um excelente piano, baixo, trompete, sax, percussão e bateria. gastei $ 10 CUC – Dez dólares com direito a dois drinques. Na saída muitas meninas oferecendo serviços de guia para “conhecer” Habana. Cheguei em casa tarde e Margarita preocupada na porta. A mãe de 84 anos não havia dormido e disse estar preocupada. As senhoras já começavam a me cuidar…
Dia seguinte, teclando com o amigo Paulinho Rangel na internet me apresentou (via e-mail) o Zé Henrique Felzenzwab, um profundo conhecedor de Habana e da música cubana. Com troca de e-mails descobri que ele era amigo do Alexis Bosch (que eu acabara de conhecer no La Zorra) e de diversos outros artistas como o Orlando Valle, Irakere, Chucho Valdez etc. Ele me deu dicas para ir no bairro chinês onde se comia melhor e mais barato.
.O amigo Zé Martins (Pancho) lá do Rio de janeiro, mandou o telefone de umas moçoilas carentes – quando ele visitou a Ilha conheceu diversas… Não cheguei a ligar. Não havia necessidade de procurar por ninguém. As pessoas interessantes já haviam me descoberto.
Em casa perguntei a Ana se havia algum rádio na casa. Lógico, mas sempre vemos mais televisão por causa do niño. Se quiere posso te prestar uno. E instalou um no meu quarto. Liguei e escutei um programa sobre Boleros e a vida de Gardel. A cada intervalo o locutor repetia: GARDEL, O HOMEM QUE TINHA UMA LÁGRIMA NA GARGANTA.
Já tinha alguns bons livros e um aparelho de rádio. Podia cair um temporal qualquer que já estava bem protegido de qualquer solidão.
Fui outra vez para Habana Vieja – Lá entrei num ônibus inglês – aquele de dois andares – para fazer um tour por Habana. Ao meu lado, Bob Mckenzie um inglês da minha idade que vivia na Canadá.
Ex-juiz de futebol (soccer) profissional, havia se divorciado há um ano (como eu) e encontrou nas viagens uma razão para viver – como eu.
Disse que a última mulher (foi casado 30 anos) vivia reclamando que ele tinha pernas finas – Imagine que futilidade…. Me provou que mais valia a pena viajar do que ficar num só lugar. Viajando nós não pagamos hipoteca de casa, seguro de carro, seguro da casa, taxas. Mulheres você pode ter qualquer uma – Veja por exemplo esta menina linda. De fato era um monumewnto. O ônibus parado na esquina e ele fazendo gestos convidando a jovem para passear. ela topou – mas o ônibus arrancou. Ele disse: viu como é fácil? E a nossa cabeça flui melhor. Você não tem mais medo de nada, vive barato e curte todos os sons, todos os boozzs, os lugares. Ele ganha 5 mil dólares por mês e curte a vida sozinho pelo mundo. Estava comprando passagem para a Rússia, ia cruzar a transiberiana e ia jogar uma âncora por uns seis meses nas Philipinas. Disse que eu era a sua alma gêmea – Tinha pressão alta…
Eu não sabia o que era a verdade. Sabia que a saudade pela minha filha era grande…
Dia seguinte pela manhã fui no hotel Habana Libre para pegar uns panfletos de turismo. Perguntei quanto custava ir para Varadero.
Existiam dois preços. Completamente absurdos. Para os turistas um absurdo… para cubanos uns 15 dólares com tudo incluído: transporte (ida e volta), com direito a guia e almoço.
Reservei para o próximo domingo. Às 6 horas da manhã estava pronto na fila, em frente ao hotel. Levei minha filmadora e com bom turista comecei a perguntar tudo o que tinha direito.
Varadero é o grande cartão postal de Cuba. Localizado a 140 KM de Habana, na provincía de Matanzas – São 22 km de areia branca com enseadas, pequenas baías, rodeadas de campos de golfe e muito luxo.
Fundada em 1887 hoje conta com 26.000 habitantes – São 52 hotéis com mais de 15 mil quartos de hotel. Uma praia cheia de locais para pesca, mergulho, esportes radicais…No mês de junho acontece o Festival Internacional da Canção.
Gravei fita – mais uma vez, nenhuma foto…
De volta à casa, as senhoras me esperando.
O Embaixador marcou outra reunião e desta vez foi mais extenso na conversa. Me contou dos problemas que estava passando no acompanhamento de um deputado que havia sido operado de mal de Parkinson no Brasil e que em Cuba existiria a possibilidade de maior sucesso. A cirurgia não foi bem e poderia ficar sequelas.
Comentou também sobre o preço de um crematório em cuba. Onde o cidadão paga somente 15 dólares para ser cremado.
A bilheteira do cinema Infanta já me chamava pelo nome. Quase todos os dias eu via dois filmes – um às 16 e outro às 19 horas. Vi o filme americano/japonês: John Rain , o excelente filme francês “La Pianista” e a horrível série (americana) Los Inolvidables (os esquecidos) – Ainda seguindo a onda dos filmes assisti a um filme super forte : Uma produção chinesa/coreana : a história de uma militante que se apaixona pelo seu alvo – o homem que ela deveria assassinar. Lindíssimo.
No cine La Rampa assisti ao filme cubano “Joaquim Quim Quim” – custou 1 peso em moeda nacional = Menos de 4 centavos de dólar.
Dia seguinte fui assitir um show no cinema Acapulco com o cantor das Ilhas Canárias, Victor Rodriguez – E de novo, acompanhado por um dos melhores balés de Cuba..
No jornal Granma, li sobre o show pela paz nas escadarias da Universidade de Habana. Me programei e fui sozinho com a filmadora…. Finalmente chegara o grande dia. Os maiores nomes da música cubana num show pela paz mundial. Gente bonita, educada, jovens de todas as raças…
O adido cultural ligou marcando uma reunião no ICAIC – O prestigiado Instituto de Cinema de Cuba. Mandei e-mail para Adriana Dutra do Brazilian Film Festival de Miami. Poderíamos fazer um grande oba oba – mas esqueci que o Circuito Inffinito virara um mega evento – e que lógico, deveria existir um lucro qualquer. Como deslocar artistas brasileiros para um sistema que não visa o lucro?
Outra vez o motorista da embaixada me pegou em casa. Eu e o adido cultural Poli Junior fomos ao encontro de Suzana Molina e Rosa Maria Rubira, do ICAIC. Rosa me falou do sucesso do Festival de Cinema Francês, onde a iniciativa privada fez algumas parcerias com o governo que não cobraria as instalações hospedagem etc… O festival francês já existe há dez anos em Habana com sucesso.. O país conta com 535 salas permitindo spots publicitários (?).
Eu poderia ter dado continuidade ao projeto. Poderia falar com o pessoal da Brascuba, ter o apoio da Embaixada, da Nestle, da Odebrecht etc. mas já estava na hora de voltar. O meu visto acabara e para renovar deveria apresentar uma declaração de que eu vivia num lugar registrado e aprovado pelo partido. Como estava ilegal não poderia prejudicar a dona da casa. Até que poderia viver muitos anos em completa felicidade. Mas, clandestino. E isto não me cheirava bem. O tio Felix (tio do Ozzy) me pegou em casa e me levou para o aeroporto. Com muita tristeza viajei de volta para Nassau. Não tinha passagem de volta para Miami….
Com pouco de mais de 300 dólares no bolso pensei que daria para comprar uma passagem no aeroporto. Os hotéis na alta temporada cobrando 300, 400 a diária e o próximo vôo (stand by) seria em três dias e custaria uns 300 dólares. Mas como, se paguei $130 na ida?
Com duas malas pesadas, parei no balcão da Jet Blue em Nassau e dei uma risada. Ri muito. E descobri naquele momento que, ou eu estava completamente louco ou que a minha felicidade total havia chegado. Fui a todas as companhias aéreas para checar os vôos. Nada. Foi quando Charell, uma morena muito bonita, (funcionária da Jet Blue) sorrindo, me perguntou se eu estava perdido.
I’m stock in Nassau. No money, no hotel, nothing…
Lembrei de um filme americano onde o personagem passou a morar no aperoporto…
Ela pegou as páginas amarelas e começou a procurar possibilidades de vôos e hotéis. Pensei que não iria funcionar.
Charell, de repente virou para a companheira de traballho e disse – estou saindo agora. Se alguém perguntar, tive um problema para resolver.
E disse, espere aqui do lado de fora que eu volto já. Em menos de 5 minutos voltou com uma SUV enorme e disse: entre.
Coloquei as malas no carro sem qualquer noção do que iria acontecer. Ela disse: tenho academia às 5: 30 – Temos duas horas para resolver o seu problema. Antes vou passar em casa para ver as minhas filhas e mudar de roupa.
A casa era geminada com outra super confortável e bonita. A filha mais velha tinha uns 16 anos e era linda. A mais nova uns dois anos. Dois casamentos e consequentes divórcios. Ela tomou banho e pediu que a filha me preparasse um drinque. Não acreditei. Como poderia aceitar um drinque naquele momento de sufoco? Ela disse: relaxa que vai dar tudo certo.
A jovem fez um super drinque, forte – uma mistura de Martini, Campari, Ron – acho que tinha tudo dentro daquele copo.
Eu mais animado. Saímos para uma agência de viagens de uma amiga.
– A única solução é o meu amigo viajar para Freeport de avião e de lá pegar um navio para a Flórida. E as duas agentes encontraram uma solução.
Ela me deixou no lobby de um hotel e disse para ligar às 8 horas. Liguei, ela não atendeu. Passei a noite no lobby do hotel e de manhã no aeroporto ela disse; por que não me ligou de novo? Eu estava dirigindo e não escutei…
Em Freeport o primo dela estava me esperando no aeroporto e me levou (de cortesia) ao porto. Ela fez todas as reservas e ainda prometeu me visitar em Miami.
No aeroporto de Fort Lauderdale o eterno amigo Pedro Lazaro esperando com a Mirza, sua mulher – esperaram mais de 3 horas pela minha chegada. Na falta de avião muita gente acabou inventando o navio….
Fui para a casa do Pedro Lázaro, sempre com a ideia de que agora não poderia ficar mais do que uma semana num mesmo lugar. Lembrei de uma expressão que dizia que quando a roupa começava a feder tava na hora de ir embora….

Em Miami recebi um e-mail da amiga cubana (aquela amiga de 30 anos), perguntando como fora a viagem para Habana.

Minha resposta:
Amiga,
É grande a quantidade de pessoas que me pedem para mostrar os videos … as historias…
Falei com a sua prima Esther – por telefone – mas não tive chance de encontrá-la.
Da próxima vez vou sair com ela com certeza…
Tenho muitas histórias para contar – ADOREI Cuba! Não vi uma casa com as características que você me falou.
Morei em três casas de cubanos. Todos com ar condicionado…todas limpíssimas… lógico que com roupa no varal etc. Mas com o básico de uma boa higiene. Pelo contrário – duas das casas, os donos tinham mania de limpesa. Todas as casas tem geladeira, máquinas de lavar – pelo menos um quarto com A/C, bastante ventilados, TV com 5 canais – até o campeonato brasileiro de futebol eles passam no Gol TV. A novela A FAVORITA é um coqueluche no país. O primeiro apê (quarto que aluguei) foi para turistas. Paguei caro (para mim foi caro) logo depois consegui um quarto na casa de uma mulher maravilhosa – Uma deusa negra – ex-funcionária do Ministério de Comércio Exterior. Educadíssima… conhece grande parte do mundo. Lógico, me apaixonei…..
Convivi com bandidos, contrabandistas, traficantes (de bebidas e cigarros), bêbados, estudantes (conheci muitos estudantes de medicina) – mas principalmente conheci (e fiquei amigo) o Embaixador do Brasil, o pessoal da Brascuba (a primeira empresa mixta de Cuba), o pessoal da Odebrecht…
A dona da minha casa não entendia nada – em pouco tempo eles começaram a mandar Mercedes Benz com motorista, ar condicionado etc, para me buscar em casa. Virei personalidade. Conheci e convivi com o Teófilo Stevenson. Ia fazer a biografia dele – acho que se internou …alcoólatra… uma pena – um tremendo boxeur. Fidel adora o Stevenson….Eu andava mais de 70 quarteirões por dia. Gravei 9 horas de filme. AMEI CUBA. Se pudesse, viveria para sempre por lá….. Infelizmente tive que voltar porque o meu visto era renovável. Mas a casa que eu morava (no final) não tinha licença e eu não quis prejudicar a dona. Ela tinha que preencher um documento atestando onde eu estava.
Consegui uma casa em Jaimanitas – perto do Habana Club, a dois quarteirões da casa do Comandante…. uma casa para alugar por 250 dólares por mês… a dona é uma loura de olhos azuis – meio coroa mas bem conservada…
Estou apaixonado por Cuba. Agora estou em Tacoma, Seattle. Morando num lindo apê (do meu filho que voltou da guerra do Afeganistão) de frente para o Mt. Rainier… LINDÍSSIMO!!!!!!!
Na semana passada o exército americano ofereceu um fim de semana – 3 dias – num lodge com tudo pago. Skamania Lodge – ao lado do Rio Columbia, no Oregon. Você agora pode entender que existe beleza em tudo na vida. Mas de fato, entre este primeiríssimo mundo que estou agora e um lugar onde falta arroz, laranja e T Bone Steak… não me pergunte – você jamais entenderia a resposta.
Um grande beijo, com saudades,
Chico Moura

EPÍLOGO

Quando voltei de Cuba descobri que poderia viajar para qualquer lugar – bastava anunciar, sonhar e começar a viagem. De lá fui para Tacoma (no Estado de Washington) ao lado de Seattle, visitar meu filho que estava num processo de divórcio e acabara de voltar do Afeganistão. Foram dois meses de um clima diferente, conforto e de novo, muito tempo livre. Tinha que descobrir uma nova profissão… A instituição jornal já vinha se arrastando há algum tempo. A minha profissão morrendo. Eu não poderia morrer junto. Jornal ainda dava para alguns…alguns trocados. O custo e a inadiplência eram maiores do que o lucro verdadeiro… Isto sem falar na força da internet…
E jornal era a minha vida…
A resposta do e-mail de minha amiga cubana não é publicável. No fundo, no fundo o que eu achava era que os cubanos de Miami deveriam todos os dias rezar para que Fidel continuasse vivo. Só assim continuariam a ter livre acesso aos EUA, facilidades de novos negócios e uma melhor oportunidade de vida. Não foi o sistema socialista que fez a debandada. Eles nem sabiam direito o caminho que o socialismo ou comunismo (como queiram) iria levar. Simplesmente, como qualquer outro povo o “american dream” era mais importante e tentador.
Hoje eu lamento muito que as pessoas que acreditaram no capitalismo estejam tão infelizes, tão dependentes de tantas pastilhas, pílulas, remédios das mais variadas cores e tamanhos – sem comentários… Quanta gente morrendo pela fama, pelo dinheiro, pelo ego… Impressionante o malefício que o sistema capitalista causou à humanidade. Uma sociedade doente, completamente distante dos ensinamentos cristãos….
E o pior: o comunismo também não deu certo. No mundo da internet não havia mais espaço para grandes ditaduras, grandes guerras, super potências explorando outros povos.
Agora (2010) estou numa casa (com internet) na praia da Baleia, no Ceará. Me aposentei com pouca grana mas com muitas ideias. E não me sinto absolutamente “aposentado” aos 64 anos de idade. Moro numa casa que será transformada numa escola de inglês e espanhol. Vou dar aulas (grátis) para as comunidades carentes, para os filhos dos pescadores.
Minha casa está geminada à uma igreja da Assembléia de Deus. Neste momento que estou escrevendo, eles estão em transe… gritando muito (acho que Jesus anda meio surdo) e eu vou ter que parar de escrever…
Só uma lembraNça: Nem Carl Marx, George Washington, Lenin, Luther King, Adams, Fayol, Taylor, Ford, poderiam entender como é este meu paraíso…

Texto de Chico Moura, extraÍdo do livro VILLA IPANEMA, lançado em 1994, no Rio de Janeiro: