Este é um texto de Chico Moura, publicado no Livro Villa Ipanema, a primeira biografia de IPANEMA – que completou 100 anos em 1994. Foi lançado no dia 16 de dezembro do mesmo ano pelo jornalista Mario Peixoto, no Bar Jangadeiros – uma semana depois do falecimento de Tom Jobim. Mário Peixoto foi também criador do Jornal de Ipanema, no ano de 1966. Neste livro reuniu personagens históricos do bairro mais badalado do Rio de Janeiro.

IPANEMA TERRA DA GENTE

Até que poderia ser pouco tempo, se comparado com o Cabinha, Tom Jobim, Mario Peixoto, mas os vinte e dois anos que vivi em Ipanema (de 1950 a 1972) foram os mais marcantes da minha vida. Por todas as esquinas que andei no exterior, nenhuma posso comparar com a Rua Farme de Amoedo com Visconde de Pirajá. Num lado uma mercearia (do sr. Armando e Waldomiro Esteves), noutro o Bar (Americano), o Bazar São Paulo e na quarta esquina, a Casa Celso’s (camiseiro), onde no sobrado vivia o Zé Trindade (comediante já falecido). Havia ainda o disputado hidrante que servia de encosto para as intermináveis e calorosas discussões políticas, numa época em que existiam poucos partidos mas sólidas convicções. Os anos da ditadura eram espairecidos nos bares da rua Farme de Amoedo. O bar do sr. Arnaldo (que tinha as melhores batidas), o Bofetada (do saudoso Luciano) – hoje com seu irmão Antonio – o Bar Americano e o Bela Flor.
Guardo boas recordações de pessoas, de acontecimentos e lugares desta época. A maior parte do tempo morei numa casa de vila da rua Visconde de Pirajá, 180, onde pulando o muro dos fundos brincávamos com o Paulinho Galinha e o Paulo Jobim (o Tom nesta época morava na Barão da Torre) e pulando o outro muro estávamos no terreno. Era. é claro, um terreno baldio, depois campo de futebol, cercado de mangueiras, pés de cajá-manga, abacateiros e muita mamona. Festa de São João com fogueira e balão, pipa, garrafão, queimado, bola de gude e brigas de futebol. O bonde 13 (Bar Vinte) ou o 14 (General Ozório), os malabarismos no estribo e o pulo para o reboque. Ah que saudades…
Numa época onde podiam-se alugar cavalos na esquina da rua Alberto de Campos com Montenegro (atual Vinicius de Moraes) ou andar de charrete de bondinho no Jardim de Alá, os “poeiras” Ipanema e Pirajá disputavam os horários entre uma matada de aula num ou outro colégio – ao preço de um ingresso assistíamos a dois filmes, de 14:30 às 17:45 h.- com muitos seriados de bangue-bangue, desenho animado e pastelões italianos. Os cinemas Astória e Pax foram os últimos desta época, sendo depois criados o Bruni-Ipanema e mais tarde o cinema de arte da Joana Angélica. No final dos anos 50, Ana Maria, minha irmã, circulava entre as turmas do bairro com um caderno de perguntas e respostas: Qual o melhor filme? Você tem namorado? Qual a melhor música?
Os postos Oito e Nove foram os mais badalados nos anos 60. Os salva-vidas Jacaré e Bocaiúva são parte da história do bairro. Bocaiúva (já falecido) podia ser encontrado , diariamente, na sorveteria Babuska, na Farme de Amoedo, e o compositor Jacaré, que morava na Vieira Souto, durante muitos anos trabalhou com Chico Anizio na TV Globo.
Nos tempos de Candelabro Italiano e chanchadas da Atlântida, as primeiras festas, as primeiras descobertas… A academia de judô de Haroldo Brito, na praça General Ozório, onde os mestres De Luca, Arnaldo Artilheiro, Eurico Versari, Marquinhos Esquenazi e , posteriormente, com a mudança da Brito para a rua Teixeira de Melo, com Ducan, Tanaka, Celso Vieira Lima, Claudio Pereira (hoje em Miami), o campeão Paulo Góes, Luis (Lite) Machado, Hermanny, Jorge Mehdy (Jorge Francês) e os saudosos Pipper e Mauricinho Monjardim, dividindo as histórias e a fama do bairro. A mais famosa mulher da Academia Brito, Leila Diniz, caminhava diariamente conosco pela praia da Montenegro ao Arpoador, fazendo seus exercícios e posições de caratê (mesmo grávida) em seu inesquecível primeiro biquini. No dia 15 de fevereiro de 1963, Carlinhos Manhães e João Carlos Sabóia, usando a prancha de madeira oca, se aventuram numa travessia às Ilhas Cagarras.
“Lembro com se fosse hoje”, diz Gil Paraíba, que morou ao lado do Bar Veloso (hoje Garota de Ipanema) : “Eu estava lá no dia que eles partiram. Jamais vou esquecer. Nunca soubemos exatamente o que aconteceu. Uns dizem que foi a água fria, outros que foram os botos… Três semanas depois os corpos de Carlinhos e João Carlos foram encontrados nas areias da Barra da Tijuca”, concluiu emocionado Gil Paraíba.
As turmas de Ipanema: (Guru, Charuto, Charutinho, Mosquito, Esquilo, Deca, Dica, Mano, Levy, Eduardo Piu-Piu, Waldir Bandido, Douglas, Olcy (Gaúcho), que morreu no início dos anos 60, com um tiro no Gelorama (que foi o primeiro rinque de patinação no gelo da cidade), seu irmão, o Negrinho – que assumiu o apelido e ainda… Paulo Góes (Paulinho Vaselina ou Paulo Pisca), nunca boataram o “galho dentro” para as mais famosas turmas do Leme, da Sans Peña ou qualquer outra que viesse perturbar as festinhas de 15 anos ou os bailes do Clube Lagoa, Caiçaras ou os da fronteira com o Leblon, AABB e Monte Líbano.
Ali na praça General Ozório se reunia a juventude transviada com as lambretas italianas paradas à porta do Bar Jangadeiro, onde iniciamos os primeiros passos junto à técnica de pegar, com uma das mãos, vinte ou trinta bolachas de chope, que podia ser tipo schnitt, garoto, simples ou duplo. O mais famoso personagem, o Barbado, era um cachorro movido a cevada, que diariamente, entrava no bar, sentava junto a qualquer mesa e esperava uma doação. Volta e meia se ouvia um grito para o garçon: “Ô Ratinho, traz um chope pra mim e outro pro Barbado”.
Foi uma fase marcante, onde a recém-criada Banda de Ipanema (1965) dividia as preferências dos poucos gritos de carnaval de rua do bairro – os mais conhecidos eram os da Miguel Lemos, em Copacabana. A praça General Ozório, já famosa pelo final da linha do bonde 14 e do ônibus 12 (Estrada de Ferro-General Ozório), que tinha num modelo inglês um lado da frente recuado, começava a se articular para a criação da primeira Feira Hippie da cidade do Rio de Janeiro.
Frei Leovigildo, o mais famoso pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz, fazia nas missas de domingo ruidosa campanha contra a criação da primeira boate do bairro, o Ankito’s (no lugar do Bar Samburá), rua Visconde de Pirajá, 187-C. Mais tarde, a mesma igreja, que inovou na instalação do primeiro ar condicionado, celebrou uma missa tendo ao fundo o Rock & Roll do conjunto Brazilian Beatles…
Os clubes de futebol de praia daquela época em Ipanema, o Lagoa (professor Cantuária, Carlinhos Manhães, Gugu, Paulinho, Joninhas dadica, Lula, Nena, Pepa), o Tatuís (Luis Desiderati); o Pinguins (Waldir Bandido), o Caiçaras (Jorge Nocelo); o Porangaba (Gil Paraíba, Sergio Leite, Bebeto, Chicão) e o Torino (Deca, Manoel, Bené, Isaias e Domingos Cabral), que serviram de base para os filhos dos anos dourados que hoje mostram nas praias o maravilhoso futevôlei de praia na rua Vinicius de Moraes (antiga Montenegro). Daí saíram os campeões Marcelo e Leivinha. Os irmãos Cabral, famosos no futebol, eram os moradores do número 22 dessa rua, endereço que viria a ser a casa de Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema.
Além do Bar Jangadeiro, anotamos o Bar Berlim, o mais antigo (1934) da região, que na época da guerra mudou o nome para Shangri-lá e depois Bar Lagoa. Lembramos com saudades do Mau Cheiro, frequentado por motoristas de ônibus e mais tarde por intelectuais. Com a badalação do Pier e a concentração de intelectuais da época, o Mau Cheiro virou Barril 1800. Ao lado anotamos, em 1963, a criação do Castelinho, que durante algum tempo também marcou presença atendendo principalmente aos turistas estrangeiros que visitavam Ipanema. O Zepellin, o bar de paredes verdes (rua Visconde de Pirajá, 499), criado em 1937, tinha no alemão Oscar Geildel (ex-garçom do Clube Caiçaras) a sua marca registrada servindo o melhor chope dos anos 60. Diariamente encontrávamos o José Wilker, Beth Faria, Claudio Marzo, Roniquito, Otávio Maravilha III, Paulo Silvino, Paulo Góes, Carlinhos Oliveira, Baden Powell e Ricardo Amaral, que de tanto frequentar acabou comprando o bar do alemão em 1968.
A fama do bairro já estendia por todo o Brasil, mas foi a partir da rua Montenegro 39 que ele se projetou. No pequeno bar de frente para a rua Prudente de Moraes, um balcão de mármore rosa servia bebidas rápidas, seguindo-se uma bomboniere e ao fundo uma enorme vitrine com garrafas importadas. A casa recebeu o nome de Café e Bar Veloso. Raul Veloso, o primeiro proprietário, contratou o tricolor Nilo, o garçom que levou o apelido de Scarripa. Em 1950 com a venda do bar para o sr. Batista e Armênio Oliveira, foram contratados alguns anos depois os garçons; Arlindo, Silva e Raimundo. O campista Arlindo (uma rara exceção entre os cearenses que comandam a noite carioca) é o mais antigo garçom do atual Bar Garota de Ipanema. “Comecei a trabalhar em 1963, um ano antes da ditadura. Isto me deu um maior contato com os intelectuais da época”, diz o orgulhoso Arlindo. O cearense Silva também lembra de grandes momentos: “ Às vezes era duro de aguentar. Você já imaginou servir uma mesa com Cabelinho (Luis Carlos Portinho), Roniquito (Ronald Chevalier), Candinho (José Cândido de Melo Matos Sobrinho) e Ipiranga (Paulo Roberto Ferreira Dias) ?”. Outro garçom, o cearanse Raimundo, mais discreto, lembra de Tom,Vinicius e Baden.
Foi no dia 31 de dezembro de1961, a realização do primeiro futebol à fantasia . Logo de manhã cedo fazíamos fila na casa de Dona Júlia, na Barão da Torre, para a troca de sexo. Só participavam do futebol à fantasia os jogadores que estivessem vestidos de mulher e literalmente bêbados. A concentração no Veloso parava o trânsito da rua Prudente de Moraes e o jogo sempre marcado para começar ao meio-dia nunca aconteceu antes das 17 horas. Os mais representaivosa nomes desta época em Ipanema, sem dúvida, passaram pelo Veloso. Entre eles registramos; Sinhozinho (da capoeira), Cirandinha, Mario Pedregulho, Carlos Eduardo de Ipanema Moreira (o Barão – descendente do fundador de Ipanema), Chico Tozelli, Marcos Vasconcelos, João Perfeito, Carlinhos Tupã, Zequinha Estelita, Cabinha, Claudino Vieira Lima Filho (pai de Celso e Robero Quebra-Copos), Lucas (tio do Trajano), Paulo do Açougue, sr. Martins (pai de Sergio Bilula e Gil Morcego – que dormia de dia e bebia à noite), Orlando (pai do Grilo e Orlandinho), dr. Vicente, Toninho da Aeronáutica, Peter, Tião, Ralph, sr. Ferrreira (Calica), Raul (Vovô), Caju, sr. Heidi (pai de Gil Paraíba), Pualinho, Sergio Tecidos, Giberto Salvador, Mario Peixoto e Nelson Gomes (criadores do Jornal de Ipanema), Carlinhos Tupã, Mauricinho Monjardim, Léo Ferreira, José Martins (Pancho) , Marco Varela, Munir Helayel, Fausto Wolff, Hugo Santana, Dico, Arduino Colassanti, Ruy e New(os Irmãos Metralha), Paulinho Morizot, Tião, Carlinhos Pãozinho, Titetoi, Fernando e Helinho Moneró, Grilo, Paulo Paiva (pai do Lula, Pepa e Nena), Coronel Luis e Major Flores.
Havia a mesa da Távola Redonda: Mário Pinião, almirante Cesar. A mesa do escrete paraguaio: Paulinho Berger, Geraldo Salada, Bob Onça. Entre os músicos registramos; Pixinguinha, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, Luis Bonfá, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Candinho, Bill Horney, Ipiranga (Paulo Dias), Terra Trio (Fernandinho, Ricardo e Zé Maria), Gaúcho (Negrinho) .. Numa época de “penduras” (as contas eram pagas por mês), estes músicos davam muito trabalho ao sr. Oliveira, já cansado, passa em 1970 o comando para os filhos Sergio e Carlinhos. Por este tempo, com a fama da música Garota de Ipanema, o bar foi literalmente invadido pelas mais diferentes personalidades internacionais.
“Era uma grande confusão de idiomas”, lembra Arlindo. “Todos os dias chegavam americanos, franceses, alemães e italianos buscando o bar de Tom e Vinicius”, finaliza o garçom. O poeta Carlos Drummond de Andrade tinha com Roniquito, Tom e Zequinha Estelita uma mesa cativa. Lembro numa tarde de o Tom se levantar e em alto e bom tom dizer um verso der Drummond ainda desconhecido na mesa:
“E vou me recolher
ao cofre de fantasmas,
que a notícia de perdidos lá não chegue
nem açule os olhos policiais do amor-vigia”.
O poeta sorri, termina seu copo de leite agradece e segue para a mais próxima padaria comprar o pão. Foi a última vez que vi Roniquito e Carlos Drummond de Andrade.
Aos amigos que já tomaram a saideira: Roniquito, Zequinha Estelita, Carlos Drummond de Andrade, Mauricinho Monjardim, Raul Vovô, Vinicius de Moraes, Cabelinho, Pixinguinha, Cirandinha, Batista, sr.oliveira, Helinho Moneró, dr. Claudino, sr. Ferreira, sr. Heidi, Mario pedregulho, Carlinhos e Nandinho Manhães, Théo Sodré, Sinhozinho, Paulo Silva, Mario Pinião,Rodolfo Póvoas, nHugo Bidet, Paulo Piava e Paulinho Dom Helder….uma homenagem em crônica (de Chico Moura), publicada no livro VILLA IPANEMA – ao lado de Tom, Vinicius, Fernando Sabino e outros… lançado no ano de 1994, no Bar Jangadeiro (o novo) em IPANEMA.