O começo da viagem...
Sempre achei que a loucura e a coragem corriam paralelas. E na vida, quando uma me abandonava… a outra chegava 
 
Tenho um amigo, Bill Williamson, que quando dirigia o Brazil Herald – o maior jornal diário no idioma inglês do Brasil dos anos 60 e 70 – foi a uma festa no Consulado dos EUA no Rio de Janeiro e conheceu uma baiana (na época funcionária do consulado). Se apaixonaram e resolveram casar. Aí ele disse: Eu me caso, logo depois de voltar da minha grande viagem de barco. Havia planejado viajar solo (sozinho) no seu veleiro, de Portugal ao Rio de Janeiro e de lá para Fort Lauderdale, no Estado da Flórida. Não aconteceu. Eles se casaram, tiveram filhos, netos e se mudaram para os Estados Unidos. Quase 40 anos depois, já com a vida estabelecida na Flórida, resolveu fazer a tão sonhada viagem.  
No seu retorno, eu estava na beira de um canal (em La Olas), em sua casa, ao lado do pessoal do jornal Miami Herald, do Sun Sentinel e outros veículos – para entrevistá-lo. Fiquei impressionado com a vitalidade de um setentão contando as aventuras da travessia. Mais tarde a emoção aumentou quando li o livro “Cartas ao Coração” que sua esposa Vania Williamson havia escrito durante a viagem. Vania voava para cada cidade que Bill aportava com seu veleiro e em cada lugar entregava ao marido, uma carta de amor.    
Então, quando senti a primeira dor no joelho, após a retirada de meniscos, quando os ossos começaram a estalar, a se queixar… e quando caí na realidade da aposentadoria – aos 66 anos de idade – resolvi correr mais com a vida e deixar o descanso para depois. Assim, decidi fazer esta viagem por terra, de Caracas ao Rio de Janeiro, usando qualquer meio de transporte público. O projeto inicial seria sair de ônibus dos Estados Unidos ao Brasil via México, Colombia, Peru, Bolivia etc… Sabia que muitos já haviam realizado esta aventura… de barco, de avião, de teco-teco, de bicicleta, a pé e até um maluco que há muitos anos saiu sozinho – de jangada – do Ceará para Miami. Nunca havia registrado até então, alguém cruzar este trajeto de ônibus.  
Mas não foi só o Bill Williamson que me iluminou nesta aventura…
 
– Anthony Bourdain. Nunca invejei ninguém – mas como eu gostaria de ter vivido a metade das experiências deste fantástico jornalista da TV americana! Ele viaja, escreve, narra, grava, come, bebe e vive todas as boas culturas do planeta. Filho de um executivo da indústria da música clássica e uma editora do New York Times, Bourdain trabalhou muito tempo como “chef” no famoso restaurante “Brasserie Les Halles” de Manhattan (também existiu uma filial do Les Halles em Coral Gables, Miami). Bourdain criou um seriado no Travel Channel mostrando, a  cada episódio, a característica de cada cidade, vivendo por 48 horas a culinária, mostrando as receitas mais exóticas do planeta. Ele comeu testículos de cabra no Marrocos, ovos de formigas em Puebla no México, olho de foca (Crú) como parte da tradição de uma caçada de foca. Comeu uma cobra inteira, bebeu sangue e biles de animais no Viet-nam. Em uma de suas entrevistas, declarou (de gozação)  que a coisa mais repugnante que ele jamais comeu na vida foi um “Chicken McNugget”…. mas confessa que o reto (cu) de um javali da Namíbia e um tubarão fermentado da Islândia são “as piores comidas da minha vida”. Anthony Bourdain já visitou diversas vezes o Brasil. Num destes programas já na  CNN, com o seu “Anthony Bourdain: Parts Unknown”, gravou e participou de uma feijoada na periferia de São Paulo. Com diversas subidas à Rocinha, no Rio de Janeiro, se encantou com o Brasil. Uma vez perguntaram a ele quais os lugares mais interessantes do mundo. Ele disse: com certeza os países nórdicos são fantásticos: Noruega, Dinamarca, Holanda, Suécia…. povo educado, tudo funciona…. mas não tem qualquer graça. Legal mesmo é o Brasil, um país surreal.
 
– Paulo Rollo – Meu grande amigo paulista, que viajou num Fiat Elba todos os países das américas, todos da África e todos da Europa – no mesmo carro. Além disto, Paulo pilotou uma moto por toda a Europa e até agora já percorreu (dirigindo) mais de um milhão de milhas… Numa de minhas entrevistas para um jornal, ele declarou que iria jogar sua âncora em Florianópolis, no Estado de Santa Catarina. Comprou uma bela casa e casou com uma “manezinha” – nome dado às pessoas que vivem na Ilha. Eu contestei dizendo que o micróbio já estava lá e que ele não iria conseguir mais parar de viajar. Antes desta minha circulada pela américa, Paulo Rollo  e Jeanne compraram  um motor home e realizaram um belo projeto: 48 ESTADOS – percorrer com a esposa, 48 estados americanos, em 48 meses. Logo depois Paulo comprou um resort na Isla de Coche na Venezuela e continuou viajando…
 
– Nelson Santos – Em 1996, quando descobriu um câncer em Dana, sua esposa, entrou num monza 92 e foi até Uchuaia – extremo sul da América. No momento em que a filha Gabriela tirava uma foto do casal (ao lado de uma placa que indicava o Alasca a 25 mil quilômetros), ele gritou: Vamos para o Alasca? Da Argentina, ligou para o seu escritório de advocacia no Rio de Janeiro, avisando que ia fazer uma longa viagem, entrou no seu Monza e partiu. Sem planejamento, sem roupas especiais, pneus de neve, nada… eles simplesmente foram… rodaram 100 mil quilômetros e voltaram ao Rio de Janeiro.
 
– Família Shurmann – A família Schürmann partiu de Florianópolis em 1984 e durante os dez primeiros anos passaram viajando pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. O economista, empresário e velejador Vilfredo Shurmann é casado com a professora de inglês (formada na New York University) Heloisa Shurmann e pais de Pierre, David, Wihelm e Kat (a filha adotiva do casal, nascida na Nova Zelândia em 1992 e falecida em 2006, vítima de complicações relacionadas a AIDS). Um dos filhos, David Shurmann dirigiu o filme “Pequeno segredo’ uma história baseada na lição de vida de Kat para a família Schürmann.
Os filhos foram criados a bordo. Wilhelm velejou por 10 anos. Em 1988 Pierre fez administração de empresas nos Estados Unidos e David desembarcou na Nova Zelândia onde se formou em Cinema e Televisão. São tantas as viagens da família Shurmann neste veleiro, que dariam um outro livro. Até os dias de hoje recebo informações dos novos projetos no facebook.
 
No meu caso não está sendo muito diferente. Depois de morar em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte, mudei para o exterior em 1972; NYC, New Jersey, Washington, Orlando e Miami. Depois morei em Portugal por duas vezes, Seattle e Cuba. Há poucos anos fui morar na beira de uma praia, no Brasil e, como voluntário, dar aulas de inglês para os filhos dos pescadores de numa aldeia de pescadores no Ceará. E, após conhecer 36 países, lembrei de um ditado de minha vó acriana que dizia: “Meu filho, Pedra que rola muito não cria limo”…. e eu respondia: Para que serve o limo? só para o peixe comer… as pedras que rolam, brilham, têm mais valor! 
No determinado mês de junho, fui com meu amigo Emanuel Costa assistir a um destes jogos do Brasil na casa do Edgard Mello, em Pembroke Pines, sul da Flórida. Ele estava chegando da Europa onde acabara de percorrer mais de 800 quilômetros a pé – Da França para a Espanha, fazendo o Caminho de Santiago de Compostela. O experiente Edgard disse que o melhor trajeto – para minha viagem – nesta época do ano seria da Venezuela ao Rio, através da  Amazônia.
 
CIRCULAR AMÉRICAS – Como somos seres mutáveis, sujeitos a mudanças – Graças a Deus – rapidamente tracei outro caminho, começando por Caracas. De Miami viajei com uma “ quase nomorada”  pela Ilsen Airlines – que nunca havia escutado – pagando 370 dólares – one way – Existem outros vôos que variam de $ 220 a $ 700 (somente uma ida) para Caracas. Antes, uma parada em Curaçao, a maior ilha do antigo arquipélago das Antilhas Neerlandesas – Os holandeses denominaram assim a ilha por não serem capazes de pronunciar “Ilha da Curação”, nome dado originalmente por navegadores portugueses que viram ali a cura de doentes atacados pelo escorbuto.  Lá provei o mais famoso café (importado) da Costa Rica, o Café Britt. 
 
Logo nos primeiros dias desta viagem lembramos as dicas do Paulo Rollo: “ Chico, depois dos Estados Unidos, tudo é terceiro mundo”. 
O vôo que era para durar 3 horas acabou virando 9 (NOVE) horas.  Então, para que numa destas viagens possa existir prazer, a primeira palavra que se deve ter em mente é PACIÊNCIA – a segunda: PACIÊNCIA e a terceira: PACIÊNCIA!!!. Tem-se que estar aberto e aceitar as adversidades do terceiro, quarto ou quinto mundo. Horários não respeitados, calor insuportável, conforto zero. Mas, após 6 horas de atraso a estrela começou a brilhar. No aeroporto fui recebido maravilhosamente bem por Elvia Terbullino, uma peruana radicada no lado leste de Caracas, no bairro de Santa Inez. De cara me disse que havia falado com seu amigo em Upata e que minha viagem para a Gran Sabana, perto da fronteira, já estava arranjada.
A Gran Sabana tem 10.820 quilômetros quadrados de extensão e é o segundo maior parque nacional da Venezuela. Com uma temperatura ao redor dos 20 graus – muitas vezes caindo à noite para 13 graus, é uma região de uma paisagem incomparável; com rios, cachoeiras, desfiladeiros, vales profundos, florestas impenetráveis ao lado de savanas com um colorido espetacular e diferentes planaltos, mais conhecidos como Tepuis.
Dormimos em Caracas (eu e minha fotógrafa/namorada) na casa de Elvia e dia seguinte, rodando pela cidade comecei a notar alguma semelhança com a cidade de Havana, em relação às propagandas de governo. Já no aeroporto, um cartaz com uma enorme foto de Chavez rodeado de crianças. Carlos e Elvia Terbullino resolveram “tirar umas férias” e se ofereceram para nos levar em um maravilhoso tour pela cidade. E eu, muito educado, fiz questão de encher o tanque – Total de um tanque cheio: 1 dólar (UM DÓLAR).
A partir daquele dia fiz questão de pagar todos os tanques e nos 3 dias que passei na cidade não consegui gastar mais do que dois dólares de gasolina…
Mas não é só a gasolina que é barata. No efeito dominó, quase não acreditei quando vi um cartaz anunciando um pedaço de pizza por $0.70 – Setenta centavos de dólar. Ao chegar em casa perguntei quanto pagavam de telefone por mês; 4 dólares. E a conta de energia? Com tudo incluído, ar condicionado etc. ao redor de 5 dólares por mês. Um cheesburger no Mc Donald?  caríssimo:  48 bolívares ou seja $1.50 (um dólar e meio) – Lembrei do preço de um cheesburger no Mc Donald do Brasil quase quatro vezes mais caro. Não deu vontade de sair de Caracas. Se o turista caminhar pelos bairros mais simples, vai encontrar produtos ainda muito mais baratos.
Ainda no primeiro dia, andando pela cidade notei a forte influência européia. Muitos portugueses, italianos, libaneses e de acordo com as informações dos nossos anfitrões; muitos orientais. No almoço comemos um coelho assado com salada e batatas num restaurante situado no alto de uma montanha, cercado de pequenas favelas… um lugar onde poucos turistas conhecem. Me lembrou o Bar do Bigode, um restaurante no meio de uma favela em Vitória no Espírito Santo, onde um amigo nos convidou para comer a melhor moqueca do Brasil. O restaurante “ La Conejera” está localizado na Vía Razono Tazón de Caracas, de cara mostra um estacionamento enorme com truculentos  guardadores de carros. Já no caminho (na subida da montanha) revistas policiais com guardas fortemente armados de fusis…
No segundo dia fomos conhecer Hatillo, um município do Estado de Miranda, uma mistura do Village de New York, Coconut Grove de Miami e São João Del Rey em Minas Gerais. No meio da praça, dezenas de criancinhas brincando ao som de um conjunto (sem alto-falantes graças a Deus) formado de um contrabaixo, um violão e um maravilhoso violino. Mais tarde comemos com nossos amigos – num restaurante meio museu, meio brechó – uma pizza gigantesca com duas garrafas de vinho Trapiche, alguns refrigerantes – Total da conta para 5 pessoas: 25 dólares. 
No terceiro dia de nossa viagem, que leva o nme de “ CIRCULAR AMÉRICAS”  comprei uma passagem de ônibus (nove dólares cada) de Caracas para Puerto Ordaz, um percurso de dez horas num confortável leito, nada parecido aos incômodos assentos do Greyhound americano. Com saída marcada para 7:30 da manhã no terminal de Caracas. No meio do caminho, uma parada para almoço com frango inteiro assado e batatas, salada de verduras e refrigerante – tudo por 3 dólares.
Chegando em Puerto Ordaz perguntamos ao motorista do ônibus, quanto nos custaria levar até São Felix, cidade mais próxima de Upata, o nosso destino. 
– Se pagamos uns 90 bolívares (três dólares) extras, você pode nos levar a São Felix? 
– Logico que não; vai te custar somente 30 Bolívares = Um dólar. 
Em São Felix perguntei a um policial no terminal de ônibus, qual táxi poderia nos levar a Upata. Ele apontou para um carro sem placa, com estilo dos anos 60. Lembrei dos velhos táxis de Cuba, quando vivi em Havana. 
Táxi de São Felix para Upata: 2 dolares. Entramos no automóvel seguidos de mais três venezuelanos. Dois deles completamente embriagados. O motorista um moreno alto, forte e aparentemente de pouca conversa. Atrás, os bêbados cantando e contando histórias. O mais falante comentou baixinho com o amigo, que acabara de sair de uma prisão na Bolívia por ter matado um bandido. Quando parei para pensar me vi num automóvel, sem saber para onde poderiam estar nos levando, se íam nos assaltar, nos matar… Naquele momento qualquer coisa absurda, a qualquer instante poderia acontecer. Não sabíamos que o trajeto duraria 2 horas e o único pensamento era de não deixar transparecer o  pânico. Foi quando comecei a puxar conversa com o motorista. Ele, evangélico reclamou da criação que os pais da modernidade davam aos seus filhos. O bêbado repetia as conversas e começou a cantar acompanhando o som do carro. Em poucos minutos todos estavam cantando – Perguntou ao motorista se ele topava vender o CD. Na hora barganharam o preço e o CD passou para as mãos do bêbado e tudo acabou em pizza… Foi quando começamos a nos tranquilizar e ter certeza de que o caminho estava correto e que chegaríamos finalmente à Upata. Lá um amigo de Elvia nos esperava no terminal de ônibus. 
Che era um amigo de Elvia Terbullino que pacientemente esperou na rodoviária – o nosso “mais de  duas horas” de atraso – Pastor de uma igreja evangélica conhecia bem de estrada, quando, recém casado rodou num fusquinha – com Adelis Belandria, sua esposa –  toda américa do sul, inclusive o Brasil. Conseguiu através da igreja, uma cortesia no Hotel Pellegrino, com ar condicionado, geladeira e o mais importante: internet grátis. Embaixo do hotel o restaurante “Batatas”, cheio de gente bonita com estilo europeu. Uma garotada saudável, alegre. Parecia um restaurante italiano ou espanhol. Custei acreditar que estava no meio da selva venezuelana! E o mais incrível; a qualidade da comida e os preços – Um drinque Long Island, dois Sprites, 2 churrascos com fritas, legumes, purê e arroz: 13 dolares. com gorjeta e tudo incluído, para duas pessoas.
Upata, é uma cidade de 90 mil habitantes localizada entre as bacias do rio Orinoco e Cuyuní, capital do município de Piar, do estado de Bolivar. A sua fortaleza econômica é baseada na agropecuária com um gado de boa qualidade e obviamente o melhor queijo da região: o “Queso Telita  Guayanes”, assim como os internacionais, ricotta e mozzarella – todos de excelente qualidade e preços baratíssimos.
Gostamos tanto de Upata que resolvemos ficar mais um dia no hotel, agora pagando uma diária de 16 dólares. Dia seguinte Che nos levou à sua casa para conhecer a família e nos convidou para almoçar. A casa de dois andares, num estilo espanhol, apresentava cômodos grandes, confortáveis, com diversas salas e muitos quartos para receber os fiéis que vinham de outras paragens. No fundo da casa uma bela piscina e um jardim bem cuidado com alguns carros na garagem. Che adorava o Brasil e radiante, nos contou que o único filho do casal tinha sido (made in Brazil) gerado numa estrada brasileira. Sua esposa Miraida, mandou preparar um ensopado de frango e abriu a garrafa de um delicioso vinho italiano. Aproveitamos a oportunidade para trocar alguns dólares com o casal – assim como fizemos com os amigos de Caracas. Naquela época, no câmbio oficial o dólar valeria uns seis bolívares… no câmbio negro trocamos a 32 bolívares. Lembrou o nosso país nos anos 70…
No terceiro dia em Upata decobrimos uma praça de esportes, onde diariamente às 5 horas da tarde um instrutor reunia umas 200 pessoas e, de graça, dava aulas de aeróbica ao som de possantes alto-falantes. A seguir caminhando pela cidade, no final da tarde, entramos numa padaria tão moderna que quase não acreditamos estar no meio da selva. A Venezuela, depois do Brasil, é o país que mais abriga portugueses nas américas. Daí a tradição das boas padarias. Os pães venezuelanos são de excelente qualidade assim como todos os doces e confeitos.  
Às 9:30 da noite fomos para o terminal esperar o ônibus que chegou com duas horas de atraso. No banco de espera, sentado ao nosso lado, com os olhos cheios de medo, o filho de um pastor evangélico que iria fazer a sua primeira grande operação em dólar, no Brasil (?).   
Uma passagem de Upata para Santa Elena do Uairén (dez horas de viagem), custa 180 bolívares ou seja 6 dólares – Uma garrafa de água no meio do caminho custa 5 bolívares (menos de 20 centavos de dólar) e uma ligação telefônica numa cabine qualquer custa um bolívar.
Chegamos de manhã na cidade de Santa Elena do Uairen – saímos as 11:30 da noite do dia anterior – Na rodoviária pegamos um táxi pagando 80 centavos de dólar ate o Hotel Lucrecia – que nos ofereceu uma grande tranquilidade, com o silêncio de uma verdadeira casa de campo.  A diária de 400 bolivares (13 dólares) com ar condicionado, frigobar, TV a cabo e piscina. À tarde almoçamos numa churrascaria brasileira por 10 doláres no sistema “all you can eat”  com direito a todos os tipos de carne. Com alguns funcionários brasileiros, perguntei como era viver na Venezuela. Muitos disseram que não voltariam ao Brasil. E para legalização (poder morar e trabalhar) não era necessário qualquer documentação – pelo menos naquela região..
Com os fantásticos preços da Venezuela, a um custo de vida quase zero não nos encorajava cruzar a fronteira e seguir para a Pacaraiama, a primeira cidade do lado brasileiro. Então ficamos mais um dia em Santa Elena – Dia seguinte fomos ver as diversas opções de turismo na Gran Sabana, o orgulho maior dos venezuelanos, uma área verde que oferece a prática de esportes radicais como o Rapel, Rafting, caminhadas, muitas corredeiras, passeios de helicópteros e entre outras atrações o Angel Falls, ou Salto Angel, a cachoeira mais alta do mundo, com 610 metros de altura.
Na Gran Sabana verificamos mais um vez o Tepuy ou Tepui, uma formação maciça, com fendas, escarpadas, numa superfície plana, com paredes verticais, resultado de uma erosão pre-histórica com o nome de “Escudo Guayanés”; uma região entre o Estado de Bolívar na Venezuela, Amazonas e Roraima, no Brasil, ocupando também parte das Guianas. Existe há 3.600 milhões de anos com uma cobertura sedimentária extremamente resistente à erosão. Na Gran Sabana os Tepuyes estão localizados a uma média de 500 metros de altura mas podem chegar até a 2.800 metros acima do nivel do mar, como é o caso do Tepuy Roraima. 
No último dia na Venezuela rodamos pela cidade de Santa Elena de Uairen, que mais parece uma grande casa de câmbio – Na principal rua, dezenas de supermercados e lojinhas de eletrônicos lotadas de compradores brasileiros (muambeiros) com seus proprietários gritando o câmbio do dia. Na chamada “Quatro Esquinas”, uma multidão de jovens uniformizados com a palavra “câmbio”  impressa nas roupas. Toda a população oferece trocar qualquer dinheiro no câmbio negro. A um custo de 60 bolívares (uns 2 dólares) pegamos um táxi para Pacairama a cidade da fronteira localizada a 20 minutos de distância. – Uma estrada super segura e limpa com um landscaping fantástico. Cada foto parecia uma pintura, com vegetações desenhadas, bem delineadas e cores bem definidas. Uma imagem inesquecível. Após o visto carimbado na fronteira caminha-se mais uns 100 metros para o Brasil. De cara, na cidade de Pacairama, uma agência do Banco do Brasil onde um australiano tentava (mais uma vez) tirar algum dinheiro num caixa eletrônico e assim conseguir pegar um táxi-lotação para Boa Vista. Conversei com o nosso motorista brasileiro que topou levá-lo até Boa Vista, até que ele pudesse tentar sacar em outra agência. O trajeto de 3 horas para a capital de Roraima custou 12 dólares (25 reais) para cada um dos 5 passageiros. O motorista tinha o conveniente apelido de “Índio”, um nativo moderno, experiente na estrada e muito simpático. No caminho o australiano (que não falava uma palavra de português) me confidenciou que, pela terceira vez, desde que a esposa falecera, dava a volta ao mundo usando transportes públicos. No olhar, a tranquilidade e a sabedoria de que, a qualquer momento – em algum lugar – uma máquina de ATM (caixa eletrônico) iria funcionar. 
Chegando em Boa Vista, fomos direto para o Hotel Itamaraty, o mais perto da rodoviária, oferecendo por 30 dólares (a diária) um quarto com frigobar, ar condiconado e banheiro fora – no corredor. Antes paramos em mais uma máquina de ATM e nada. Nenhuma funcionava.. O “Indio” disse para o Australiano que algum dia poderiam se encontrar e não cobrou a passagem. Umas duas horas depois nos deparamos com o australiano na porta de nosso hotel. Ele voltara para dizer que finalmente havia encontrado uma máquina de ATM funcionando. 
À noite fomos direto comer um delicioso tambaqui assado, na barraca “Peixada do Dinho” – O Tambaqui tem pouca espinha, e muito sabor, porque ele se alimenta basicamente de frutas, sementes, insetos e coquinhos muito duros que tritura com seus dentes arredondados e fortes. 
No segundo dia em Boa Vista fizemos um tour pela cidade… provamos do famoso guaraná em pó e do sorvete de cupuaçú.  Visitamos o Pier Bar, “O Seu Porto de Encanto”, localizado à beira do Rio Branco e vimos pela primeira vez a imensidão das águas.
A partir desta data começamos a verificar a grande diferença de preços entre os três países: Estados Unidos, Venezuela e Brasil. Uma passagem de Boa Vista para Manaus (dez horas de viagem) custou 50 dólares, uma pequena fortuna se comparada aos preços da Venezuela. Ainda em Boa Vista conhecemos a Wendri, dona de uma pequena lanchonete na rodoviária. Nascida e criada no Acre, nunca teve a oportunidade de frequentar uma escola primária. Auto-didata conseguiu se inscrever no antigo artigo 99 (segundo ciclo) e passou – Estudava de 5 às 8 da manhã e de 6 às 9 da noite – todos os dias. Conseguiu se formar numa Faculdade de Administração de Empresas. Trabalhando sete dias por semana comprou mais duas lojas na rodoviária e mesmo com dois filhos adolescentes se formou em direito trabalhista. Estava prestando provas para conseguir o título na OAB e já planejava estudar para ser juíza. Nas horas vagas dirigia um táxi e recentemente havia comprado um ônibus de turismo. Com uma enorme energia e grande simpatia, Wendri me fez lembrar da bravura desta região norte e da grandeza das injustiças sociais no mundo. 
 
MANAUS
Muito cedo chegamos na rodoviária de Manaus e seguimos para o salão de espera até que as ideias fossem se encaixando de novo. Descobrimos com o tempo de que o destino desconhecido é que era o grande barato desta viagem. 
Poderíamos lembrar de procurar algumas pessoas conhecidas em Manaus… mas a boa sorte sempre iria nos acompanhar. Na rodoviária entrei numa fila de ônibus para comprar uma passagem para Manacapuru, onde poderíamos ficar no Hotel do Athayde (pai da Indra Athayde funcionária da Mudanças Confiança de Miami). Após uns 20 minutos na fila abre um outro guichê anunciando uma nova plataforma. Outra fila maior se formou e seriam mais uns 30 ou 40 minutos de demora. Então, resolvi sair e entrar para o salão de espera da rodoviária, até que uma ideia qualquer iluminasse o melhor caminho. No banheiro pude constatar a primeira grande decepção com o Brasil. Nenhum respeito pelo ser humano. Uma imagem que jamais irei esquecer – Um mar de urina misturado às fezes que transbordavam dos vasos sanitários, a pior imagem e o pior cheiro que já presenciei num banheiro público. O salão de espera, invadido pelo mau cheiro era uma mistura de hospital, com asilo de loucos… uma reunião de mendigos, deficientes físicos sem assistência, bêbados e drogados de todos os tipos e cores. Acho que nem na Índia ou nos mais atrasados países africanos se presencia tamanho descaso para com a sua população.
Levantei e saí caminhando até um ponto de ônibus procurando um transporte municipal que me levasse ao Porto da capital do Amazonas. Lá chegando, entrei numa agência de turismo para checar horários. Era um domingo e o primeiro navio sairia na quarta-feira para Belém. Saímos procurando hotel nas imediações do Porto de Manaus.
O Hotel Ana Cassia cobrava 80 dólares a diária. Para quem ficou num hotel com piscina, frigobar, TV a cores, ar condicionado em Santa Elena  de Uairen, na Venezuela, pagando 13 dólares seria doloroso pagar 80. Como estávamos bem dispostos, caminhamos um pouco mais e nos hospedamos no Hotel Rei Salomão, pagando 60 dólares.  Dia seguinte mudamos para o Hotel Orquidea, mais perto do Porto, caindo a diária para 30 dólares. Lá perguntei onde poderia fazer um câmbio – A dona me apontou uma loja de cor azul (Training) e disse para procurar o Wandico. Um simpático mineiro trocou os dólares a um câmbio bem razoável. Dia seguinte voltei  para trocar mais dólares na loja de materiais esportivos e lá estava Wandico rodeado de amigos. Um deles, Marcos Valerio – também mineiro – se ofereceu para nos levar num tour pelo interior da amazônia. Não aconteceu. Mas em compensação nos tornamos grandes amigos. Marcos olhou para o relógio e disse; volte às duas horas que eu vou te levar num lugar. No horário marcado nos encontramos e seguimos pelas ruas de Manaus. A cada esquina uma saudação. Eu disse: você deveria se candidatar a vereador. Ele respondeu: Com este nome de Marcos Valerio não conseguiria um voto… e sorriu – Em Brasília ainda rondava nas páginas policiais o nome de Marcos Valerio, Um dos cabeças do escândalo do “Mensalão”.
Sua esposa Wanderléia, trabalha no Museu Amazônico. Lá escalou uma guia, Silvia Moraes, que nos mostrou as maravilhas da história indígena do Amazonas, o maior Estado do Brasil. Comentei sobre o nosso amigo Arnaldo Garcez, um artista plástico amazonense (residente no Rio de janeiro) que todos os anos faz exposição em New York. E por coincidência, ela havia conhecido o pintor, tocando flauta num bar de Manaus. 
Logo após o tour pelo Museu Amazônico, Marcos Valerio, que é Turismólogo e formado como Técnico em Meio Ambiente, nos levou para sua residência – perto de Ponta Negra. Uma casa de dois andares, simples, mas bastante confortável. No quintal, um verdadeiro paraíso. Todos os tipos de frutas cercadas por bem-te-vis, periquitos, beija-flor, pardais, rolinhas. A cada minuto aparecia Marcos Valerio trazendo um pote de pimentas de cheiro, condimentos dos mais variados sabores, tortas de castanhas, pães de queijo, bolinho de bacalhau… uma incrível diversidade de alimentos. E no final tira do congelador uma garrafa de vinho português da melhor qualidade. A cada menção de “ir embora” ele aparecia com uma novidade. Após 5 horas de gentilezas Marcos chamou sua filha que nos ofereceu uns dias numa pousada (do esposo italiano) no meio da floresta amazônica. Agradecemos o convite mostrando que na quarta-feira o navio sairia de Manaus com destino a Belém. Mas, prometendo voltar o mais rápido possível para uma pesca de tucunaré e tambaqui. As pessoas interessadas em um tour pela amazônia poderão procurar o Marcos pelo e-mail: amazonexcursion_valerio@hotmail.com.
Dia seguinte caminhamos por Manaus e com muita tristeza verificamos a decadência dos tradicionais  marcos históricos da cidade, nenhum sinal dos gloriosos dias de riqueza da castanha e da borracha. O Mercado Municipal completamente destruído – dizem que; “sempre em reformas”. O Hotel Amazonas transformado em apartamentos e escritórios em péssimas condições. O centro da cidade sujo, mal acabado e com um cheiro horrível nas ruas. Lógico que o Theatro Amazonas continua imponente, altaneiro… mas pouquíssimas das tradicionais edificações de Manaus continuam de pé. Na era Collor, Manaus começou a ser prejudicada com a abertura de outros portos no Brasil e o fim da zona livre acaba definitivamente com o ciclo da punjança e da riqueza.
 
Na região sem muito tráfego do Rio Negro, além da Vitória Régia, a maior flor do mundo com folhas circulares, que chegam a mais de um metro de diâmetro, encontramos grandes mamíferos da água como o Peixe-boi e o Boto. Pode-se ainda encontrar árvores típicas da amazônia, como a Andiroba e a Mafumeira.
Os parques do Mindu e Parque Estadual Sumaúma abrigam répteis como a tartaruga, caimões (o jacaré americano) e víboras assim como pássaros e peixes de todas as espécies. 
A população de Manaus é ao redor dos dois milhões de habitantes – No ano de 2009 recebeu o premio de “melhor destino verde” da América Latina durante o World Travel Market, ocorrido em Londres. A cada temporada a cidade recebe mais de 20 navios cheios de europeus – principalmente os alemães. O segundo maior contingente é de americanos. – O “Encontro das Águas”, um fenômeno natural causado pelo encontro das águas barrentas do Rio Solimões com as águas escuras do Rio Negro, as quais percorrem cerca de seis quilômetros sem se misturarem. Um espetáculo único aos nossos olhos. No último dia em Manaus, na praça do Theatro Amazonas comemos um Tacacá no Tucupí, deixando para o resto do dia a lingua dormente pelo caldo da mandioca. 
Na terça-feira, um dia antes de nossa partida, fui comprar as passagens de navio numa agência de turismo localizada no Porto de Manaus. No salão da hidroviária um enorme quadro do poeta Thiago de Mello, irmão do nosso amigo residente em New York; o músico Thiago de Mello: 
Filho da floresta, a água e a madeira viajam nos meus olhos desde a infância. Vai no meu peito o barco da esperança e o amor pelo Amazonas, a pátria da água. 
A viagem de 5 dias numa rede para Belém, custaria 200 Reais. Num camarote simples custaria mil Reais e numa suite 1.200 Reais. Entrei numa fila e quando ia dar o dinheiro, perguntei quem era o dono do navio AMAZON STAR. A mulher da agência deu o nome e o telefone do dono. – Entrei num balcão de serviços e pedi um celular emprestado. Lógico que a dona da agência não iria me dar o número correto do dono do barco. Aí uma senhora que estava na loja disse; fala com aquela moça ali, que ela é parente de alguém de lá.. Me dirigi à moça que afirmou não conhecer ninguém daquele navio mas que tinha um número de um telefone de alguém que poderia conhecer… Atendeu o Edinelson Trindade. Ele me atendeu mas disse que estava em reunião e que chamaria em seguida. Finalizei dizendo que neste meio tempo ele poderia dar uma olhada no meu site www.chicomoura.com
Quando já ia desisitindo o meu telefone toca. Era o Edinelson já marcando uma reunião no lobby do Hotel Ana Cassia. Ele já sabia quase tudo ao meu respeito. Sugeri ficar numa rede, ele me ofereceu um camarote. No dia seguinte chegamos no navio às nove e meia da manhã e lá estava o Edinelson nos esperando. Conversou com a Victoria Pereira da Silva, uma espécie de gerente de bordo… e aí mudaram de ideia e nos ofereceram uma suite – tudo cortesia do Sr. Antonio Rocha e de sua filha Albaney Rocha, os donos do navio.
Edinelson Trindade, em muito pouco tempo de conversa nos cativou pela simplicidade e pelo fantástico tino comercial. Paraense, de uma família de dez irmãos saiu do interior para vencer na cidade grande. Outro auto-didata que, em pouquíssimo tempo (aos 28 anos de idade), virou gerente de um navio de turismo – após 8 anos de trabalho, o Sr. Antonio Rocha, do Amazon Star, descobriu Edinelson e o convidou para ser gerente. Hoje além de trabalhar para o AMAZON STAR, um dos mais confortáveis navios da região, Edinelson criou uma página (www.amarelasinternet.com/edinelson) onde proporciona de maneira bastante efetiva a divulgação de qualquer negócio, via internet. Vale a pena conhecer o site do Edinelson e como se diz em inglês: GIVE IT A TRY! 
 
Manaus – Belém 
Já à bordo do navio AMAZON STAR fomos levados pela Vitoria para conhecer o nosso camarote, os locais das futuras refeições, os banheiros etc… O primeiro andar do navio é a parte da carga – mas que pode abrigar até 90 redes extras – se necessário – com automóveis, sacos de carvão, de batatas, bananas, mamões, eletrônicos, caixas dos mais variados tipos e tamanhos. Numa das extremidades, o primeiro restaurante para os passageiros dos camarotes e suites. No segundo andar, metade do navio é para camarotes e a outra metade um grande salão com ar condicionado oferecendo espaço para 286 redes estendidas de uma forma assimétrica. O entrelaçar de redes é uma fotografia tradicional da região, com crianças, jovens e adultos misturados a malas, caixas, sacos de linhagem, toneladas de produtos alimentícios e todos os tipos de etnias possíveis e imagináveis. Numa rede, pode-se encontrar um caboclo ao lado de uma índia, casada com um alemão ou um negro nigeriano ao lado de uma americana que conversa com um argentino. 
No terceiro andar  outro salão para redes, um pequeno bar e um deck com chuveiros. Na proa, o som de uma música meio brega, estridente, mas dando grande alegria aos jovens nativos.
Na primeira parada – ainda em Manaus – Vitoria nos disse que mudaríamos para uma suite com banheiro, frigobar e ar condicionado. E assim durante os cinco dias da viagem nos ofereceu uma tremenda mordomia, onde além da cortesia da diária de R$ 1.200 (cinco dias), todas as refeições gratuitas.
Em pouco tempo no barco, fomos identificando os tipos, as nacionalidades. De cara um mexicano casado com uma americana da California – ambos professores universitários – chegaram mais perto para estabelecer uma conversa. Ele meio gordinho e com cara de “bon vivant” , sempre com uma latinha na mão, sem hora, sem destino. Ela no início reclamou um pouco do barulho, da comida… mas em pouquíssimo tempo devorava tudo: monstruosas postas de dourados, tambaquis, churrascos, sucos de cupuaçú, de açai…. De quarta a domingo ficamos sem internet, e praticamente sem telefone celular.  
Navegando pelo Rio Amazonas – o maior rio da Terra em volume de água (6.992 km de extensão) saímos de Manaus na tarde de quarta-feira e durante o final do dia caminhamos pelo barco tirando muitas fotografias. O porto de Manaus é uma hidroviária com centenas de pequenas embarcações fazendo o transporte rápido entre os gigantescos barcos e navios. É uma grande bagunça organizada onde no final, tudo dá certo. O improviso é diário, constante. A suite com ar condicionado, cama beliche, frigobar e um banheiro oferecendo um razoável conforto, seria a nossa casa nos próximos 5 dias.
 
NO BARCO – DE MANAUS PARA BELÉM
 
Sem hora para acordar fomos conhecer o restaurante do navio – para o café da manhã, com frutas diversas, um excelente café e sucos naturais. Principalmente – e sempre – o famoso cupuaçú.  Uma fruta típica da região amazônica, com uma aparência entre cacau e jaca. As sementes do cupuaçú ficam envoltas por uma polpa branca, ácida e aromática. A fruta é utilizada para a fabricação de sucos, sorvetes, geléias, bon-bons, vinhos e licores. 
Uma das primeiras imagens que se registra numa viagem pelo Rio Amazonas é a rápida mudança na formação das nuvens, da chuva repentina, sol intenso e do contraste das cores fortes criando a todo momento, a vontade de se fotografar. Eu carregado de variados tipos de repelente, sempre preocupado com a fama dos mosquitos… não sabendo se era a boa época do ano, se por ter consumido toneladas de vitaminas B  ou se realmente tudo aquilo era um mito… o fato é que durante toda a estada no Brasil nenhuma muriçóca, carapanã ou simplesmente um simples mosquito me picou. Nada!!!. Ainda cheguei a passar o repelente umas duas vezes por todo o corpo… mas depois vi que era perda de tempo.   
O almoço no barco AMAZON STAR, sempre uma opção de peixe, carne ou frango e, de novo, suco de cupuaçú. Com a chegada da primeira noite, o céu completamente cheio de estrelas lembrando a nossa infância em fazendas pelo interior do Brasil. O silêncio absolutamente encantador cria uma situação atípica para os viajantes, acostumados ao barulho das cidades grandes. Para se ter uma ideia da grandiosidade do Rio Amazonas, no trecho compreendido entre a foz do Rio Nhamundá e Parintins a sua largura é de aproximadamente 50 km
A primeira parada foi na cidade de ITACOATIARA, onde o barco recebeu mais uns 40 passageiros. Tarde da noite chegamos à PARINTINS, na região que abriga diversas etnias indígenas entre elas a dos Tupinambás. O nome é uma homenagem aos índios da tribo Parintintins. O Festival de Parintins é a disputa entre dois bois folclóricos, o Boi Garantido, de cor vermelha e o Boi Caprichoso, de cor azul., Durante três noites de apresentação, os dois bois exploram as temáticas regionais como lendas, rituais indígenas e costumes dos ribeirinhos através de alegorias e encenações. As letras das canções resgatam o passado de mitos e lendas da floresta amazônica.
O AMAZON STAR para em diversas cidades sempre carregando e descarregando mercadorias e passageiros. Sempre que escutávamos os tradicionais três apitos, tinhamos a certeza de estar chegando a algum novo porto. 
Com muitas crianças correndo pelos corredores do navio e as tradicionais batidas na porta de nosso camarote, onde Vitoria anunciava o serviço a cada uma nova refeição, podia-se ainda escutar a música do deck principal – o local preferido dos jovens nativos, com muito ouro pendurado pelo corpo, T shirts (camisetas), bonés e tenis importados. A partir do terceiro dia, a congregação entre as diferentes etnias, a mistura dos idiomas e a amizade entre todos, mostrava o quanto é possível se viver em harmonia e paz. 
Ao redor do navio cada um garantia o seu lugar marcando território com uma cadeira de plástico que nos acompanhou por toda a viagem. Quando acabava o visual diurno, a cadeira nos “seguia” para dentro do camarote. Desta forma podia-se (com a cadeira de plástico) mudar de cenário – do bombordo (o bordo à esquerda do rumo da embarcação) ou estibordo (lado direito) – Dizem que o nome é originário da costa africana quando os barcos costeavam a margem esquerda, o bom bordo.  O lado oposto ao bombordo é o estibordo ou boreste.
 
A cidade de ÓBIDOS, foi erguida na margem esquerda do Rio Amazonas, em homenagem à vila portuguesa de mesmo nome – é o lugar onde nasceram o jurista e contista Inglês de Sousa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras; José Veríssimo e o romancista Ildefonso Guimarães. Óbidos é conhecida como “a mais portuguesa das cidades do Estado do Pará”. Em suas águas registramos igarapés de águas cristalinas como Curuçambá e a pesca esportiva no Mamaurú. O principal evento turístico da cidade que hoje abriga 50 mil habitantes, é o carnaval. A festa dura mais de uma semana, e é conhecida como “Carnapauxis”; a cada ano o evento tem crescido, com blocos organizados que saem às ruas com mais de dez mil foliões. 
 
SANTARÉM é o terceiro maior município do estado do Pará , ficou conhecido poeticamente como “Pérola do Tapajós”.  Em 2012 sua população foi estimada em 299.419 habitantes. Santarém tem mais de 100 quilômetros de praia que parecem um grande mar, como é o caso de Alter do Chão, com as suas águas cristalinas do Rio Tapajós. Também conhecido como “Caribe Brasileiro” foi escolhida pelo jornal inglês The Guardian como uma das praias mais bonitas do Brasil e a praia de água doce mais bonita do mundo. Lá é o palco de uma das maiores manifestações folclóricas da região, o Sairé, que atrai turistas do mundo todo. O nome também provém da cidade portuguesa de mesmo nome. 
Chegando em Santarém pisamos terra firme e fomos conhecer o dono do navio, o Sr. Antonio Rocha. Re-eleito deputado pelo Estado do Amazonas e atual prtesidente do PMDB, Antonio chegou ao navio pontualmente às 6:30 da manhã para fazer o controle de qualidade, verificando cada detalhe de sua embarcação. Um homem tranquilo, com olhar suave e um largo sorriso nos lábios… nos encantou pela simpatia e profissionalismo. Atendia a todos com educação e mão firme. O seu escritório está situado em Belém – mas diariamente ele trabalha no eixo Manaus – Santarém. Ofereceu um suporte para quando chegássemos em Belém onde Albaney Rocha, sua filha trabalhava.
 
A ILHA DE MARAJÓ está localizada na foz do rio Amazonas no arquipélago do Marajó. Com uma área de aproximadamente 40.100 km², é a maior ilha fluviomarítima do mundo. A maior ilha fluvial é a Ilha do Bananal. Destaca-se pelos montes artificiais, nomeados tesos, construídos ainda em seu passado pré-colombiano pelos índios locais. A ilha era chamada de Marinatambal pelos indígenas (confirmado por Sir Walter Raleigh no século XVI), já em tempos coloniais foi denominada como Ilha Grande de Joannes. É o lugar de maior rebanho de búfalos do Brasil, cerca de 600 mil cabeças. A principal cidade da Ilha de Marajó é BREVES, localizada a doze horas de Belém – em nosso barco, o AMAZON STAR que entrando no estreito de Breves e no Canal do Vieira mostra as populações ribeirinhas e o mais bonito trajeto de nossa viagem… Intercalados por trombas d’água observamos de perto as casas de madeira sobre palafitas e centenas de canoas com criança de 8 a 12 anos remando com vigor, içando em nosso navio as suas embarcações com uma corda e, em movimentos rápidos, escalam pelo casco do navio, vendendo pamonhas, açaí, mangas, cupuaçú, cacau, palmito em conserva, camarão salgado (fresco) ou refeições completas a um preço de 5 Reais.  
No ano de 2009, a população de Breves foi registrada no IBGE com 99.223 habitantes – Os primeiros habitantes da região foram os índios da tribo dos Bocas. Em 19 de Novembro de 1738, o capitão geral do Pará, João de Abreu Castelo Branco, concedeu aos irmãos portugueses Manuel Breves Fernandes e Ângelo Fernandes Breves uma sesmaria, localizada às proximidades do rio Parauhaú. Com a instalação de um engenho, o lugar passou a ser chamado de “Engenho dos Breves”, em homenagem aos seus fundadores. Em 25 de Outubro de 1851 foi criado o município de Breves. 
Todos aqueles animais que imaginamos existirem na Amazônia tornam-se realidade na região de Breves: a onça-parda, jaguatirica, preguiça, ariranha, jacarés, paca, cutia, tatu, capivara, anta, macacos são apenas algumas das espécies. Os principais pratos típicos são produzidos a partir do camarão, do boi, búfalo, peixes, caças e açaí. Ainda na culinária podemos citar alguns como o tacacá, cuscuz, entre outros. 
Ao aportar em Breves, a primeira cena que nos chama a atenção é a forte religiosidade representada no tamanho da estátua de Santa Ana erguida na beira do cáis, entre uma capela e os barcos. Nas lojas, em frente ao Porto, um comércio intenso de materiais de artesanato como peneiras, cestas, tipiti, matapi, alguidar, panelas de barro, vassouras e outros, produzidos a partir da utilização de cipós, talas de palmeiras, madeira, barro e palha. Tudo isto misturado aao milhares de produtos chineses a preços populares. A população de Breves é precariamente atendida quanto ao abastecimento e a qualidade da água. Curiosamente, trata-se de uma cidade cercada por rios e igarapés. O fato é que ao se abrir uma torneira em qualquer ponto da cidade, obtém-se água de coloração enferrujada e cheiro desagradável, evidenciando a impossibilidade de seu consumo. Outro problema é que apenas menos da metade das residências recebem água encanada. 
 
De Breves para BELÉM – A “Cidade das Mangueiras”, fundada em 12 de janeiro de 1616, atualmente com uma população de um milhão e quatrocentos mil habitantes, Belém é conhecida como “Metrópole da Amazônia” e uma das dez cidades mais movimentadas e atraentes do Brasil. Também chamada “Terra do Carimbó”, vivenciou a sua plenitude no início do século passado, quando os europeus invadiram a região, atraídos pelo período áureo da borracha, influenciando a arquitetura de suas construções que até hoje mantém o tradicional estilo do período colonial. No ciclo da borracha, Belém foi considerada a cidade mais desenvolvida do Brasil e uma das mais prósperas do mundo. 
Do Porto de Belém, o maior movimentador de containers da Amazonia,  pegamos um táxi para a região da rodoviária onde poderíamos, com mais facilidade, pegar um ônibus e seguir nossa viagem para Fortaleza. Descobrimos o Hotel Transbrasil – e lá ficamos a primeira noite (pagando uma diária de 110 Reais) em homenagem aos nossos amigos Omar Fontana, Flavio Carvalho, Carlos Araujo e José Sales. No segundo dia em Belém, mudamos para o Hotel Tajá onde da janela do quarto podia-se ver a rodoviária de Belém.
No terceiro dia voltamos ao Porto para visitar Albaney Rocha, filha do Deputado Antonio Rocha – o dono do barco AMAZON STAR. Ela havia saído para o almoço – aproveitamos para visitar o Mercado Ver-o-Peso. Num meio da semana encontramos a maior feira livre da América Latina, criada em 1688,  hoje encontra-se meio em decadência, com poucos produtos à venda – mas ainda apresentando a Feira do Açaí, a Praça do Relógio (original da Inglaterra), o Solar da Beira e o Mercado Municipal – O Mercado de Ferro foi totalmente transportado da Inglaterra e eleito uma das Sete Maravilhas do Brasil. 
No Ver-o-Peso aprendemos sobre uma espécie que leva o nome de “Manihot Esculenta” e Mandioca Doce ou Aipim.  Mandioca Doce é o nome pelo qual é conhecida a espécie comestível e mais largamente difundida do gênero “ Manihot” , composto por diversas variedades de raízes comestíveis.
O nome dado ao caule do pé de mandioca é Maniva, o qual, cortado em pedaços, é usado no plantio. Trata-se de um arbusto que teria tido sua origem mais remota no oeste do Brasil (sudoeste da Amazônia) . Temos a castelinha, a mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, pão-de-pobre e variedades como aiapuã e caiabana, ou nomes que designam apenas a raiz, como caarina. No Ver-o-Peso aproveitamos para conhecer a Maniva (foto)
Em Belém, vale a pena ainda, conhecer a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, o Forte do Presépio e o complexo de Santo Alexandre (onde encontra-se a Igreja e o Museu de Arte Sacra do Pará, considerado um dos mais belos do Brasil).
Em frente à Igreja de Nossa Senhora das Mercês pegamos um táxi super confortável – zero bala – o único Toyota importado trabalhando na praça de Belém. O motorista, um professor de física tinha o conveniente nome de Newton – era da Marinha Mercante e se gabava de possuir o único Corolla da cidade. Voltamos ao escritório de Albaney Rocha que nos recebeu maravilhosamente bem – contou que recentemente havia visitado pela primeira vez (com o irmão) a cidade de Orlando, na Flórida e estava encantada com os Estados Unidos. Newton esperou pacientemente pela nossa reunião e fechou um pacote de 70 Reais pelo resto do dia. Então nos levou para Icoaraci, um dos oito distritos em que se divide o município de Belém, localizado a uns 20 km do Centro da capital estadual. “Icoaraci” é uma palavra de origem tupi. Significa “sol do rio” – ou ainda Ico-araci (onde o sol repousa) – possui cerca de 280 000 habitantes e está próximo da Ilha de Marajó, a qual é possível se chegar apenas de barco. No bairro de Paracuri, concentra-se o mais importante polo de artesanato em cerâmica – a famosa cerâmica Marajoara – Numa viagem em que se carrega somente uma maletinha e uma mochila, seria quase que impossível se comprar vasos de cerâmica. Mas a beleza das peças e os atraentes preços fizeram a nossa cabeça… Saímos para buscar alguém que estivesse trabalhando para registrar como funcionava todo o processo da criação… a chegada da argila, o molde, os tornos, o forno e finalmente a pintura.  Entramos em dez oficinas…Era uma tarde de segunda-feira e absolutamente todos os artesãos estavam de ressaca. Lembrando o meu amigo de Miami Gerson Delano, que nunca trabalhou às segundas-feiras, todos os artesãos de Icoaraci dormiam em suas  redes. Mas na décima primeira Olaria conhecemos o Cristóvão e sua esposa Kedina. Ele sem camisa, movimentava o pé esquerdo entrelaçado na perna direita, impulsionando uma roda que movimentava um torno – e sempre com as mãos molhadas, ia dando o formato a mais uma peça de artesanato.  Cristóvão fez questão de afirmar que aprendeu muito com os Mestres Rosemiro e Antonio Cabeludo a arte do artesanato.  Após algumas fotos e filmagens, perguntei porque os artesãos não trabalhavam às segundas-feiras – ele me disse que aos domingos todo mundo fazia festa até de madrugada…e que estariam “tudo bêbo”.  Conseguimos uma enorme caixa de papelão e compramos algumas lembranças. Sua esposa Kedina nos presenteou com um Muiraquitã (do tupi, que quer dizer “nó das árvores”, nó das madeiras”, Muyra = “árvore”, “pau”, e quitã = “nó”, Para os índios brasileiros do Baixo Amazonas, é um artefato talhado em pedra (na maior parte das vezes feito a partir do jade, pela cor esverdeada) ou madeira, representando pessoas ou animais (uma rã, peixe, tartaruga, por exemplo), ao qual são atribuídas as qualidades sobrenaturais de amuleto, sendo presenteado aos visitantes. Também é conhecido pelos nomes de pedra-das-amazonas e pedra-verde. O nosso (o mais tradicional) foi em formato de sapo. No livro “Macunaíma”, de Mário de Andrade as guerreiras (índias Icamiabas) ofereciam o Muiraquitã aos índios da tribo vizinha, os Guacaris. Depois do “encontro” (acasalamento), o  misticismo estaria no encorajamento da fidelidade deles para com as índias. Exibindo o Muiraquitã seriam respeitados – presentear um índio com um muiraquitã representa o ato sexual consumado entre uma Icamiaba e um índio.
 Ainda no bairro de Paracuri encontramos na beira do cais a típica culinária paraense; o tacacá, a maniçoba e o pato-no-tucupi, com destaque para a caldeirada, com peixes dos rios amazônicos.
Foi um dia mágico, enriquecido pelo Newton – o motorista de táxi e professor de física, que aproveitou o dia e tirou uma folga para os novos amigos de Miami. No caminho declarou sua revolta com os navios estrangeiros que vinham roubar até a “água dos rios” – “São monstruosos navios sugando as nossas águas doces”, finalizou. 
Na volta, Newton  nos levou para conhecer o maior parque florestal do mundo, o Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves. Uma área de 150 mil metros quadrados no bairro Marco, Zona Leste de Belém, preservada há mais de um século. O espaço, inaugurado em 1883, abriga mais de 80 mil espécies de flora e fauna e recebe, em média, 20 mil visitantes por mês – lá registramos a estátua dos guardiões da floresta Mapinguari e Curupira, o quiosque chinês, o chalé de ferro, a Gruta de Pedra-Sabão e o enorme portão da entrada principal. Árvores como a maçaranduba, acariquara acapu, a carapanauba branca, o marupá, o cedro vermelho, além da famosa seringueira, que tanta riqueza trouxe para o Brasil. Ainda registramos a andiroba, usada na região para fins medicinais e da linda castanheira sapucaia uma das maiores árvores da floresta amazônica.
Entre os animais pode-se observar araras, macacos-prego, tucanos, jandaias, garças, periquitos asa branca, jabutis, jacarés, papagaios e ararajubas. E ainda espécies em liberdade, como: cutias, macacos-de-cheiro e preguiças. O Bosque tem no total 5 mil árvores, dividas em 50 famílias botânicas.
Uma pena que não tivemos tempo para visitar o Theatro da Paz – Inspirado no Teatro alla Scala de Milão. É o maior e mais antigo da Amazônia, construído em 1878 com recursos auferidos da exportação de látex, no Ciclo da Borracha. É considerado um dos mais luxuosos do Brasil. À noite, ao assessar a internet (em relação ao nosso tempo), recebo um e-mail do amigo Howard Moss (já falecido) mandando uma frase de Lao Tzu: “A good traveler has no fixed plan and is not intent on arriving!”
Dia seguinte conseguimos mais uma vez comprar duas passagens de Belém para Fortaleza (ônibus), nas cadeiras 3 e 4 – logo atrás do motorista da viação Itapemirim. Já era a terceira vez nesta viagem que conseguíamos os melhores assentos.
Saímos de Belém ao meio dia de uma terça-feira chegando maravilhosamente bem no dia seguinte, às quatro horas da tarde em Fortaleza. A passagem custou 232 Reais e a viagem durou 30 horas. No meio do caminho uma parada em Sobral, cidade natal do cineasta Luis Carlos Barreto, do cantor Belchior, Patricia Saboya Gomes e do comediante Renato Aragão. Cruzamos o Maranhão e ao chegar em Fortaleza, registrei mais de 7 mil quilômetros já percorridos em nosso projeto; CIRCULAR AMÉRICAS… DE NORTE A SUL. 
 
Da rodoviária de Fortaleza, pegamos um táxi e nos dirigimos ao Hotel Portal da Praia, no Meireles, ao lado da Praia de Iracema. Dividido em dois prédios, o pessoal do hotel já nos esperava – uma cortesia do velho amigo Ricardo Caminha, um dos empresários brasileiros que levou em julho de 1997, o primeiro trio elétrico para os Estados Unidos. Embora tenha dado um grande prejuízo, Ricardo não se arrepende de ter levado o Chiclete com Banana e a Timbalada para a Ocean Drive, em Miami Beach –  mostrando uma parte da cultura do Brasil no exterior – Os funcionários do hotel sempre solicitos e educados faziam de tudo para nos agradar. Na primeira noite não saímos para nada… Dia seguinte, o melhor café da manhã de toda a viagem. Mais de 20 tipos de frutas tropicais, diversos sucos, pães dos mais variados tamanhos e sabores. Nunca faltando cafés, leites, yougurts e sempre… absolutamente sempre, uma concorrida tapioca feita na hora. À noite Ricardo nos levou para um tour pela Praia de Iracema e um happy hour no bar do Sal e Brasa, um restaurante de luxo. 
 
Os dias de Fortaleza foram bastante agradáveis. Alta  temporada – com as barracas da Praia do Futuro sempre cheias.  Na quinta-feira fomos provar o caranguejo do Iate Clube. A partir das barracas da Praia do Futuro, surgiu a QUINTA DO CARANGUEJO, onde em todos os restaurantes, registra-se um verdadeiro festival com baldes de caranguejo, martelos, aventais e muita cerveja. Sexta-feira fomos visitar alguns parentes e no sábado, após um dia maravilhoso na barraca Guarderia, na Praia do Futuro, a maior concentração de gente bonita do Brasil, seguimos para a Igreja do Cristo Rei, registrar o casamento do primo Pedro Capelo. Na igreja verifiquei que era o único convidado sem terno. Todos elegantemente vestidos – Após o enlace, uma recepção (de cinema) no Cambeba, palco de uma festa faraônica.
No domingo, mais Iate Clube, mais caranguejo, mais camarão, mais lagosta, mais sirigado, mais cerveja, mais caipirinha, mais tudo! no final da tarde, Ricardo Caminha liga para o hotel dizendo que poderíamos ficar até um mês, convidados da família Caminha.  No Lobby do hotel encontramos Clodomir Girão nos convidando para o Porto D’Aldeia e a prima Ana Elizabeth Moura Monte querendo nos levar para seu apartamento de cobertura na Praia do Futuro.
Seguimos para o Hotel Porto D’Aldeia, pertinho do Beach Park, o maior parque aquático do Brasil. Clodomir nos ofereceu uma suite – nada devendo aos melhores 5 estrelas americanos. O Porto D’ Aldeia é um dos melhores resorts do nordeste do Brasil. Tem de heliponto a campo de futebol profissional. Muitos salões de convenções e a tradição de realizar um dos melhores reveillons do nordeste.  Se o café da manhã do Hotel Portal da Praia era bom, imaginem o do Porto D’ Aldeia – é divino! Cheguei até a comentar com o Diretor Geral, Julio Gomes, que deveriam tirar alguns itens. Tudo é exageradamente delicioso. Clodomir, não satisfeito em nos oferecer todas estas mordomias, ainda nos pegou no hotel para conhecer uma de suas casas, na praia do Beach Park, oferecendo um delicioso almoço. Dia seguinte nos pegou no hotel e levou para jantar com um grupo de 15 pessoas no Coco Bambú, um sofisticado restaurante na Praia de Iracema.
Julio Gomes além de não cobrar as diárias, ainda nos ofereceu (cortesia de Clodomir Girão) um automóvel para passeios pela região. Nos primeiros dias preferimos as caminhadas pelas dunas e falesias – Cada dia uma nova paisagem de areia…O hotel, rodeado de árvores ciprestres, tem um parque aquático fantástico com cachoeiras, tobogãs e um excelente serviço de bar. Após muita praia, piscinas e saunas recompomos as baterias, agradecemos as cinco diárias de cortesia e partimos – Eu ainda fiquei uns três dias na cobertura da prima Ana Elizabeth  com toda aquela excessiva generosidade cearense, na Praia do Futuro.
 
BELO HORIZONTE – A PRÓXIMA PARADA.
 
A saída de Fortaleza foi complicada… final de férias, temporada cheia de turistas de todo o mundo, passagens absurdamente caras e o excesso de carinho dos amigos e parentes… A única forma de continuar viagem foi esperar a baixa temporada e partir.
Comprei passagem de ônibus – ao redor dos 400 Reais – na Empresa Gontijo com direção a Belo Horizonte. Antes um convite para ir à Brasília para o lançamento do livro; “De Quissamã a Holywood”, do cineasta e jornalista, Phydias Barbosa. Phydias morou mais de 20 anos nos EUA, hoje um cidadão do mundo.
Saí de Fortaleza numa terça-feira às 20 horas (8 pm) pela empresa Gontijo – pela primeira vez sozinho – mas sempre conseguindo a cadeira de número dois. Rezando para que nunca entrasse ao meu lado, um gordo, bêbado e chato… A primeira parada foi no triângulo de Quixadá. Deu uma incrível vontade de saltar do ônibus e visitar a cidade que frequentei nas minhas férias entre os anos 60 e 70 – Rever o açude do Cedro, a Galinha Choca e a fazenda onde tive as minhas primeiras experiências com couro, bois vacas… meu tio era dono de um curtume e logo entendi porque a minha casa de Ipanema, no Rio de Janeiro, era decorada com diversas peles de vacas e bois..
A próxima parada; Jaguaribe, onde comprei um queijo e tomei um belo café. Como de costume não dormi normalmente como os outros passageiros. Percorrer estas estradas – de ônibus – foi o maior desafio de minha vida. Não consigo dormir em rede, em avião… imagine dormir dentro de um ônibus. Após alguns cochilos chegamos a Jaguaribe no meio da caatinga. Logo depois quando me dei conta já estava em Petrolina. E busquei a música de Alceu Valença; Petrolina, Juazeiro
 
Na margem do São Francisco, nasceu a beleza
E a natureza ela conservou
Jesus abençoou com sua mão divina
Pra não morrer de saudade, vou voltar pra Petrolina
 
Do outro lado do rio tem uma cidade
Que em minha mocidade eu visitava todo dia
Atravessava a ponte ai que alegria
Chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia
 
Hoje eu me lembro que nos tempos de criança
Esquisito era a carranca e o apito do trem
Mas achava lindo quando a ponte levantava
E o vapor passava num gostoso vai e vem
 
Petrolina , Juazeiro, Juazeiro, Petrolina
Todas duas eu acho uma coisa linda
Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina
 
A entrada na Bahia, um grande contraste época de uma seca cruel, com montões de lixos jogados pelas estradas, cactos, ossadas de animais, crianças com inanição… cena de filme de terror. 
Uma parada de dez minutos em Senhor do Bonfim, foram suficientes para comer um dos melhores acarajés da viagem. Costumo dizer que “o segredo do tempero é o tamanho da fome”. No decorrer da viagem ainda no Estado da Bahia, o cenário foi melhorando – o verde aparecendo. Mas ainda difícil apagar a miséria do interior. Acho que todos os políticos do Brasil, uma vez empossados, deveriam continuar suas viagens pelo interior cumprindo o que prometeram. Uma espécie de estágio obrigatório. O povo como boi cego, continua acreditando nas promessas.   
Em Capim Grosso, troquei o almoço pelo skype e quase perdi a viagem. O motorista buzinando e eu absorvido numa conversa qualquer…. Aliás,, uma viagem destas sem lap top é uma grande tortura. E em muitos lugares não havia sinal de internet. Agora neste momento, estou jogando free cell (paciência) dentro do ônibus – e o tempo passa mais rápido .   
Finalmente cheguei às 7 da manhã em Governador Valadares, com anúncios de paradas em Ipatinga e João Monlevade. O forte sotaque mineiro, até então escondido dentro do ônibus começa a se manifestar forte, alto, como se a terra de cada um desse mais força nas observações.. nas brincadeiras. Os sotaques mandavam em cada região. Enquanto na terra de um se falava de uma forma os outros calavam….No Ceará; – Máir ménino que fulerage é esta? Na Bahia:  – Painho, falta mucho pra chegar? E em Valadares: Uai sô, ocê num disse que nóis ia chegá às 7 da noite????  
No fundo, um povo bom, de boa índole, sofrido pela ignorância televisiva que não ensina nada, que só embruetece as pessoas. Quando ainda estava no Rio Amazonas imaginei aquelas populações indígenas com famílias de 10, 12 filhos, todos ao redor da novela das oito mostrando um mundo completamente desprovido de qualquer preconceito moral. Crianças na hora do jantar, presenciando cenas de adultério, de sado masoquismo, sexo quase explícito, assassinatos, complôs, corrupção, traições, intrigas, mulheres casadas traindo seus maridos, pederastas sem pudor de todos os tipos possíveis e imaginários… Como um indio pode estar preparado para receber tanta brutalidade?  Falta tudo, quase tudo, na casa de um nativo ribeirinho, menos a antena parabólica. 
Voltando a Valadares, lembrei de uma das minhas primeiras namoradas, Regina Helena Perez, uma rica fazendeira do gado de Valadares que estudava na mesma faculdade de direito (comigo) no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ouvi falar desta cidade. Mais tarde, viajando por terra para o nordeste visitei a cidade da minha namorada.  De cara fui conhecer o Pico do Ibituruna com 1.123 metros de altitude.   Com uma população de 268 mil habitantes – com todos os municipios (somados) totalizam 407 mil habitantes. Está situada na margem esquerda do Rio Doce. Da janela do meu ônibus pude presenciar a estrada de ferro e o Rio Doce.
A passagem por Valadares me fez também lembrar de diversos amigos brasileiros residentes nos Estados Unidos.
O ônibus ainda parou em Ipatinga e João Monlevade
Finalmente cheguei na Rodoviária J. Candido, em Belo Horizonte. Sem perguntar nada a ninguém, saí seguindo os passageiros. Eles me levariam para algum lugar. Acabei de cara com uma estação de Metrô.. Perguntei a direção centro e saí com as malas cheias de artesanato Marajoara para distribuir entre amigos e parentes mineiros. Com uma mala, uma caixa de papelão e uma mochila entrei num metrô cheio. As pessoas espantadas olhavam para um turista vestindo calça branca, camisa florida no estilo Miami Vice, sandálias de couro indiano e cheio de malas…. parecia um ET. Saltei na estação Central de BH e saí  andando pelas ruas. Vi diversos hotéis… Mas todos “por hora”  – do tipo motéis. Aí vi o Hotel Esplanada, que na minha cabeça, durante algum momento,  teve os seus dias de glória. Mas tarde o amigo mineiro Rui Meireles me confidenciou que passara sua lua de mel no Hotel Esplanada.
O cansaço era mesmo de matar. Não tinha vontade de nada. Tomei um banho, criei coragem e saí rodando pelo centro de BH. Lembrei do tempo em que meu pai tinha uma loja de materiais elétricos no centro de BH e quando eu vinha namorar uma mineirinha que morava na Av. do Contorno 8590, em frente à churrascaria las Brasas…. De tanto repetir guardei o número da casa, como referência..
Como não havia comido bem na estrada, saí para jantar. Olhei a hora, ainda era muito cedo. Resolvi entao comer um pão de queijo e voltei para o hotel. Apaguei às 7 da noite – Sexta-feira liguei para o dentista Arnaldo de Sousa, um mineiro que havia morado 5 anos em Miami e 15 em Portugal. Amigo  antigo e fiel, foi me buscar no hotel e partimos para sua clínica. Antes, deu uma parada nas mansões de alguns parentes mostrando o quanto BH havia crescido. O consultório da ODONTTO -Vila da Serra, localizado num dos mais nobres endereços da cidade – na fronteira de Nova Lima com BH, estampava uma torre – me lembrava a Space Needle de Seattle, onde vivi por algum tempo. Fiquei realmente impressionado com a região. Liguei para o amigo Ialdo Bello, publicitário que também viveu por um longo período em Miami – por coincidência, em BH,  morava a 3 quarteirões da clínica do Arnaldo. Fui visitá-lo e acabei hospedado pelo resto do fim de semana – Aí começa outro ciclo de churrascos e festas… Na mesma noite fomos para a pizzaria Mangabeira  do nosso amigo Antonio Cesar – O “Toque de Elegância” – que também havia morado em Miami – Depois da pizza fui conhecer meus aposentos, na mais bela vista de BH… um belíssimo apartamento finamente decorado por Claudine, esposa de Ialdo.
Ainda na mesma noite Ialdo e Claudine me convidaram para um jantar no Chalé Santhé, no Condomínio Ipê da Serra, no meio de uma montanha, cercada por uma floresta.
Falar que estava “no meio de uma montanha” em Belo Horioznte, é uma redundância. Tudo é cercado por montanhas. O Chef Fernando Baltazar já nos esperava na porta do restaurante, que só atende com reservas previamente arranjadas.
Desde o primeiro dia em que iniciei o projeto CIRCULAR AMÉRICAS, em Caracas, na Venezuela, fui bombardeado por um imenso amor de amigos de todas as raças e tipos. Fiz uma reflexão sobre a minha vida e passei a gostar um pouco mais de mim, achando que alguma coisa boa deveria ter feito no passado. O carinho dos venezuelanos Elvia, Carlos Terbullino e Che, dos amazonenses Edinelson e  Deputado Antonio Rocha, dos cearenses Ricardo Caminha, Clodomir Girão, Ana Elizabeth Monte, o paulista Robson, a mineira Claudine e Ialdo Bello, Lucinho Bisadão, Odimar, Arnaldo de Sousa, Tia Henriqueta e Maneco…foram muitos…
Os dias que se seguiram em BH foram – como de costume – festeiros. Meu primo Manuel Henrique Moura, o Maneco, me convida para uma tarde musical na casa dos filhos Rodrigo e Ricardo. Durante o churrasco fui registrando o desenrolar de uma capa de violão, a afinação de um baixo e a armação de uma bateria. Cada convidado que chegava trazia um instrumento. Aí, de repente, entre os 12 convidados,  todos, absolutamente todos, eram músicos. Reencontrei o Lucinho Bisadão e o Odimar dois músicos de Belo Horizonte que moraram por mais de 30 anos nos EUA. Odimar é um excelente baterista e Lucinho Bisadão um compositor já bastante conhecido dos amigos da Flórida. O domingo musical rolou por mais de 8 horas e lógico, registrei em video! Dia seguinte encontrei os amigos Francisco Barbosa (o Chiquinho Marcha a Ré, residente em Miami) e Aloisio Bastos (Carcará) num boteco do centro de Belo Horizonte. No meio da semana voltei ao Rio de Janeiro (ainda de onibus) para visitar parentes e amigos – e de volta a BH fui terminar um tratamento dentário. Muito mais barato do que nos Estados Unidos. A ODONTTO de Nova Lima, é uma tremenda clínica com um staff da melhor qualidade.
Voltando ao Rio, pela Viação Cometa, fiquei uns dias hospedado entre a casa do meu compadre Leo Ferreira, no Leblon, na casa de meu filho Beto em Itaipuaçú e o apartamento da psiquiatra Wanya Cançado, na Av. Atlântica, em Copacabana. Fui matar a saudade do antigo Bar Veloso, bati ponto tomando um chopinho no quiosque  “Quase Nove” na Praia de Ipanema, reencontrei o Helio Costa, Yone Kegler, Alvaro Carrilho, Paulo Humberto, Roberto Vieira Lima e outros amigos de infância. Por coincidência assisti a um show em Itaipuaçú, do Waguinho do Cavaco, nosso amigo de Miami. Curti alguns cineminhas, fui conhecer o novo Maracanã, com os amigos flamenguistas; Nelson Luis Soares de Oliveira e Paulo Sergio Guimarães – O nosso Flamengo perdeu para o Atlético Paranaense, num Maraca confortável e bonito… cozinhei na casa de diversos amigos, inclusive na casa de Marcio e Joana Costandrade em Itaipuaçú e  viajei para São Paulo, onde bati ponto pela vigézima vez no Congresso da ABAV. Reencontrei diversos amigos de Orlando: Pablo Rosemberg e Toninho (Antonio Machado) da Perfumeland, Jorge Siciliano (JAM), Daniel Alves e Verinha do Cafe Mineiro,  Gilson Marçal, do Vittorio’s Restaurant e Tony da Innovation. Encontrei também o tradicional amigo de Fortaleza, Clodomir Girão, Julio Lopes, Dedê Gomez e Raquel Gomez. Tive ainda a grata satisfação de abraçar os irmãos Marcos e Silvinho Ferraz os nossos “filhotes” que hoje ocupam cargos importantes na indústria turística. Marcos Ferraz é Presidente da Braztoa, Associação Brasileira das Operadoras de Turismo e Silvio é Diretor da TAM Viagens. Filhos do veterano Silvio Ferraz, dono de uma das mais tradicionais agências de turismo do Brasil; a Monark Travel.
Ainda em São Paulo fui com os primos Angela e Augusto Capelo no Mercado Municipal conhecer  uma exposição das melhores cachaças do Brasil. O mercado, talvez o mais completo do mundo, ofereceu um dia de muitas alegrias e grandes prazeres culinários, onde comemos uma lagosta com frutos do mar da melhor qualidade. Nestas andanças, as coincidências acontecem quase que diariamente. No mercado cheio, pedi um cantinho numa mesa qualquer para colocar a nossa maravilhosa lagosta. O casal, super simpático, não só deixou que ocupássemos o espaço como se tornaram – em pouquíssimo tempo – grandes amigos. Já no final, depois de muitos brindes, descobrimos que ela, era produtora de TV do programa do Faustão e ele da Ana Maria Braga e para arrepiar mais ainda…. super amigos do Comendador Carlos Borges, jornalista radicado na Flórida. “Semana passada ele esteve hospedado aqui, em nossa casa de São Paulo”, disse Felipe. 
Logo após o congresso da ABAV, em São Paulo,  fui jantar em Moema, convidado pelo empresário Clodomir Girão, no Restaurante Forno do Padeiro, do Deputado Celso Russomano. 
De volta ao Rio pela Viação Cometa, ainda na rodoviária do Rio, comprei passagem na Viação Andorinha com destino a Campo Grande (MS). 
No Rio, ainda fui comer um Pernil com Abacaxi no Restaurante Cervantes (na Av. Prado Junior, em Copa) com meu amigo Phydias Barbosa, cineasta que viveu nos Estados Unidos por muitos anos – aproveitei e comprei o seu primeiro livro; “De Quissamã a Hollywood” – que li inteiro na minha viagem para o Mato Grosso do Sul.
Saí às 15:00 h. do Rio e cheguei em Campo Grande às 16 horas do dia seguinte. Entre outras cidades, paramos em Barra Mansa, Assis e Presidente Prudente (SP),  cidade que me trouxe lembranças do meu segundo casamento. Em Nova Alvorada do Sul, a última parada antes de chegar a Campo Grande, os passageiros do ônibus já começaram a reclamar do sinal dos celulares. Tentei ligação do único orelhão do posto e nada…. Estávamos incomunicáveis, rodeados de um lindo cerrado, com chapadas ao longe, mostrando uma silhueta única entre todas as paisagens do Brasil… Na volta à estrada, búfalos negros do lado direito e Nelore (o gado branco) do lado esquerdo – um verdadeiro mar de vacas.
De todo este nosso trajeto do CIRCULAR AMERICAS, onde saímos de Miami para Caracas de avião e de Caracas para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, usando diversos tipos de transportes, como ônibus, navio, barco e trem, não encontramos uma concentração tão grande de gado como em Campo Grande, a capital do Estado do Mato Grosso do Sul. Está situada junto a Serra de Maracaju, uma parada obrigatória no caminho da Bolívia, Paraguay e o Pantanal. – entre cerrados, bosques e campos férteis para a criação do gado.
Fui direto para casa de meu primo, Alexandre de Moura Cabral e segui para o primeiro grande Shopping Center da cidade. Provei uma nova comida árabe, já em homenagem ao amigo Jota Abussafi, cidadão homorário da cidade. Infelizmente as nossas agendas desencontraram e não consegui falar com o Jota.  Dia seguinte fui conhecer a cidade, almocei na casa de Thiago Cançado, ex-Secretário de Fazenda do Estado. Thiago mandou preparar uma autêntica linguiça Maracaju, uma iguaria que nunca havia provado. o prato predileto do pantaneiro paulista Tony Moura (de Miami). A única linguiça feita de carne de vaca. Uma verdadeira Delícia!
Aproveitei a passagem por Campo Grande para conhecer os parentes de Rubens Onofrio, um veterano imigrante brasileiro de Miami, que tem uma ramificação de sua família na Capital do Mato Grosso do Sul. Os tios Suely e Luiz Guidoni nos recebram com tanto carinho que será difícil esquecer. 
Dia seguinte aproveitei carona de meu primo Alexandre para Corumbá. Desta vez parando nas pontes, fotografando rios e os primeiros contatos com os mosquitos. Passados 190 quilômetros chegando a Miranda, outro mar de vacas. Após a corrida de umas 12 emas enormes, ao lado da nossa pickup, já indicavam que havíamos chegado ao Pantanal. Uma revoada de araras vermelhas, gaviões dando razantes nos Ipês brancos e amarelos. E em pouco tempo, o vôo dos tucanos de bicos vermelhos. No município de Anastácio, o primeiro contato com jacarés…gigantescos. Com muito medo desci um barranco na beira de um rio e tentei chegar perto. Eles nem se moveram. Foi quando aprendi que jacaré não ataca, ao contrário do crocodilo (principalmente estes da Flórida) que arrancam as perninhas de criancinhas…
O Jacaré do pantanal fica de boca aberta no sol e à noite põe os olhinhos de fora d’água.  Quando afudam, saem para respirar e voltam para dentro d’água, com medo dos humanos.
Cheguei em Corumbá na noite de segunda-feira. Meus primos, que são políticos na cidade, já me esperavam com um jantar numa mesa para 18 talheres. Uma das coisas que mais me impressionou em Ladário foi o tamanho das mesas de jantar. Sempre para 16, 18 ou 20 lugares. 
Localizada à beira do Rio Paraguay a cidade de Ladário é um porto fluvial onde está localizada o Sexto Distrito Naval da Marinha do Brasil.
Meu tio  Edmilson de Sousa Moura, aos 92 anos, é um oficial aposentado da Marinha do Brasil e ex-delegado da cidade. Já me esperava ansioso reunindo parte dos filhos e netos para começar os trabalhos no  “planejamento” da pesca. Meu outro primo, o Bandeira Neto, que é Vereador da cidade ficou de contratar o piloteiro.
Dia seguinte fui almoçar com o primo Alexandre Cabral no Gold Fish Hotel, com direito a um magnífico visual do Rio Paraguay. Pela primeira vez comi um “pintado ao urucum”. A televisão do restaurante anunciava mais uma greve da Bolívia com problemas na fronteira. A greve é feita com os taxistas fechando a fronteira com o Brasil. Não entra nem sai ninguém do país. Ainda no Gold Fish perguntei à  garçonete quais os peixes mais pedidos no restaurante e ela me relacionou: o pintado, dourado, pacu e cacharas.
Alexandre, que é construtor em Ladário, Corumbá e Campo Grande, recebeu uma chamada telefônica de um mestre de obras e registrei o seguinte diálogo: O que Teixeira???? quebrou o martelo elétrico? Ok vou alí na Bolívia comprar um e volto já. Eu calado, fiquei pensativo imaginando a sexta economia do mundo (?) tendo que comprar uma ferramenta na pobre vizinha e esquecida Bolívia. 
Acompanhei Alexandre até Puerto Quijaro e compramos a tal peça, umas duas ou três vezes mais barata do que no Brasil. Nas ruas, velhos e crianças vendendo de tudo e uma enorme quantidade de meninas de 13, 14 anos, com o peito de fora, dando de mamar, sentadas pelas calçadas. Após viver tantos anos nos Estados Unidos esquecemos das desigualdades sociais e da enorme miséria que diversos países ainda atravessam. E algumas vezes nesta viagem, senti vergonha da minha/nossa omissão.
Na volta, Alexandre parou na mansão do “ Rei da Fronteira”, um mineiro que enriqueceu na época da muamba entre a Bolivia e o Brasil. Acostumado a ganhar mais de 50 mil dólares (limpos) por mês reclamava dos tempos atuais. “ A internet matou o meu negócio” , disse o milionário aposentado. Eu quase concordei: o meu negócio também. Midia impressa é uma instituição falida – e metade de minha vida trabalhei com jornal. Para deixar os dois mais a vontade, já que Alexandre iria fazer uma grande reforma num edifício que o REI iria alugar para um departamento da prefeitura, resolvi dar uma volta pelo quarteirão e entrei num mercadinho. Comprei pasta de dentes, desodorante e em cima de um balcão vi uma caixa com diversos furos. Perguntei o que era aquilo e o atendente me disse que era a “caixa da sorte”. Se um prego furavasse um buraquinho e caísse uma bolinha amarela ganhava-se 20 reais. Comprei dois buraquinhos e furei,. O primeiro caiu uma bolinha preta e segundo uma bolinha amarela. Feliz com a sorte, voltei com os 20 Reais na mão para a casa do milionário.  
 
Na minha volta para Ladário, o primo Bandeira já havia então marcado com o amigo Neto, uma pescaria no meio do Pantanal. Aproveitamos a boa fase antes da Piracema. A Piracema é o período entre outubro e março onde os peixes sobem os rios até a suas nascentes para desovar, sendo portanto proibida a pesca no Pantanal. O termo vem da lingua Tupi e quer dizer: “saída de peixe” – Pira = peixe e Sem = Sair.  
Compramos água mineral, sanduíches, pães de queijo, uns dois salteñas, um pastel boliviano com carne de frango e um tempero único. O experiente piloteiro Neto pediu licença para entrar no barco, sentou e com muita educação solicitou que eu me posicionasse no meio, regulando a minha cadeira e o peso da embarcação. Pensei que era porque eu era um turista, mas com o tempo fui observando na educação com que eles se tratavam. “Pode por favor me passar o alicate?” …. “Gostaria que eu colocasse a isca no seu anzol?” Como pode? no meio do mato, tamanha educação? talvez a formação militar – Ladário é uma base da Marinha do Brasil e a grande maioria dos habitantes já passou por lá. 
Em nossa primeira parada, o barco foi arremessado para uma vegetação, parando naturalmente, sem o auxílio de âncoras ou cordas. Nunca havia pescado em rio e não tinha ideia de como eles iriam “ancorar”.  Pegamos umas varinhas de bambú e começamos a pescar peixinhos vivos para as iscas de “mais tarde” – Somente esta parada já mexeu com a minha adrenalina de pescador. 
A segunda parada deu sinais de que o dia era bom pra pesca. O Bandeira pegou a primeira piranha e eu a segunda – gorda, valente, boa de briga. A minha primeira piranha na vida… A partir daquele momento tudo virou festa. Era um peixe atrás do outro – Muitos devolvíamos  para o rio, mas lógico, guardamos as piranhas e os pacus para mais tarde. A viagem de volta durou umas duas horas, no meio do Rio Paraguay, onde pude registrar um pôr do sol diferente, único, lindo!
À noite, a família já reunida, esperava o “turista americano” que chegou cheio de peixes e histórias para contar. Numa panela monstruosa foi feita a maior sopa de piranha da região. Mais de 30 peixes.
A partir daquele momento comecei a me apaixonar pelo povo pantaneiro, cheio de  carinhos, hospitaleiro e educado. Um sotaque único… uma mistura de carioca com gaúcho, paulista e mineiro. Não dá pra explicar o sotaque do pantaneiro.
Com a pressão do dia a dia do outro lado da família (minha saudade) dos EUA, senti que o CIRCULAR AMERICAS, DE NORTE A SUL estava acabando. Não porque estivesse cansado, ou sem estrutura financeira, ou problemas de saúde. NADA DISTO! Poderia ter seguido de ônibus até o Alasca (por terra) de volta, pelo lado oeste das américas. Feliz da vida!  mas sempre existiria a saudade um filho ou de um amor escondido. E muitos amigos pediam que eu passasse o meu aniversário em Miami.
De Corumbá, fui de carro (vinte minutos) para Puerto Quijaro. Passamos a fronteira, pagamos B$ 1.50 (um boliviano e meio) e guardei o recibo. Achei estranho que das duas vezes que passei pela fronteira da Bolívia não me pararam para nada. Às 18:30 h. peguei o famoso TREM DA MORTE seguindo para Santa Cruz de La Sierra. Sai  às 18:30 horas de Puerto Quijaro.  Até aquele momento já computava mais de 15 mil quilômetros percorridos pela américa do sul… Na estação uns senhores fingindo trabalhar no trem com uniformes e tudo se ofereciam para levar as malas. E diziam efusivamente que a partir daquele setor quem carregava as malas eram eles – Entreguei a minha pequena maleta e veio a primeira cobrança. Lógico que não foi muito dinheiro – mas a partir daquele momento todos os turistas já sabiam que seria um achaque atrás do outro. Não me importei…. só observei no sofrimento das pessoas, na necessidade do dinheiro, na fome, no desespero do ser humano. Por sorte escolhi uma cadeira única, sem vizinhos, extremamente confortável. Mas ao abrir a bandeijinha encontrei um sanduíche imprensado, cheio de vermes caminhando pela cadeira da frente. Com muito nojo coloquei num saco plástico e levei ao condutor, que já apitava a nossa partida. 
Às 20:30 h. paramos na estação Rivero Torres e continuamos a viagem. O TREM DA MORTE, construído na década de 50, tem 600 km de extensão. É o trem que liga Puerto Quijaro a Santa Cruz de La Sierra  – hoje não oferece perigo de morte mas dizem que na construção, morreram milhares de trabalhadores por causa da malária.. Dizem também que quando a Bolívia sofreu uma grande epidemia de febre amarela, o trem foi utilizado para transportar os mortos.  Na década de 70 e 80 o transporte ficou sujeito a brigas e assaltos.
Ao meu lado duas lindas paranaenses que iam, pela primeira vez, curtir as férias fora do Brasil. O destino final seria Machu Pichu, onde eu também poderia – a convite das duas – passar o meu aniversário. Após uma rápida conversa, elas apagaram exaustas e eu consegui relaxar – tamanho o conforto do trem.
Santa Cruz de La Sierra, fundada em 1561, é uma cidade com quase 2 milhões de habitantes, onde 30 mil são de estudantes brasileiros, basicamente (quase todos) de medicina, que conseguiram matrículas e mensalidades muito mais economicas do que no Brasil. Santa Cruz é uma cidade de “anillos” – são 9 círculos onde alguns táxis só trafegam em determinados an’eis.
Cheguei na estação de trem às 7 horas da manhã com a minha malinha e mochila – a cada dia com mais prática e menos peso. Mais uma vez chego numa cidade sem reserva de hotel, simplesmente seguindo o Anjo da Guarda que me acompanhou por todo o trajeto e me guiou. Se alguém me seguisse poderia dizer que eu era um profundo conhecedor de Santa Cruz de La Sierra. Atravessei a rua em frente ao “Terminal Bimodal”,  tem este nome porque serve para quem viaja de trem ou de ônibus e saí caminhando em passos rápidos, seguros…. Na rua, uma confusão de gente por todo lado. Famílias de 10, 12 pessoas sentadas ao redor de grandes mesas, comendo arroz, frango ou bife a milaneza, aipim cozido, bananas fritas e enormes copos com sopas e bebidas das mais variadas cores.
Entrei no primeiro “Alojamiento” – LOTADO! o segundo, o terceiro – tudo lotado. Tentei hotel, hostal, hostel (Albergue),…. nada. Todos diziam; volte mais tarde. Era a época da EXPOCRUZ….Continuei tentando, até mesmo admirado com a minha vitalidade, após ter viajado toda a noite no TREM DA MORTE. Nunca eu consegui realmente dormir em trem, barco ou avião, mas me sentia muito bem para caminhar. Admiro as pessoas que mal sentam e já estão roncando alto e forte. Em qualquer transporte eu dou um cochilo de no máximo uns 15 minutos. Após andar em círculos entre uns 5 ou 6 quarteirões ao redor do terminal, entrei no Hotel Marco Polo. A boliviana disse que teria “una habitacion” dentro de  “un rato”. Cobrou 70 Bolivianos num apartamento com cama de casal, banheiro, TV  e ventilador. Dei 80 (uns 32 Reais – 16 dólares) e o quarto ficou limpo em menos de 3 minutos. Deitei um pouco e voltei à portaria para saber do anunciado WIFI. Tem, mas não sabemos a contrasenha- “ Já pedimos muito para o dono deixar o password e ele não dá”, disse a boliviana. Quase não acreditei. 
Ao ligar a TV a melhor surpresa; tinha Rede Globo Internacional, o que poderia pelo menos oferecer algum bom futebol, com muitas propagandas de Miami. 
Sábado de manhã, telefonei para o Felipe Capelo, meu ex-enteado que estava estudando medicina em Sta. Cruz – seguindo a profissão do saudoso pai, o médico Luis Capelo. Felipe me convidou para visitar a EXPOCRUZ, uma espécie de feira Internacional de Negócios com a participação de 600 mil visitantes de todo o mundo. Uns 3.000 expositores fazendo negócios no setor de telecomunicações, automóveis, construção, agricultura, petróleo, tecelagem, arte e cultura, com um movimento superior a 100 milhões de dólares .
No início dos anos 80, Felipe havia se formado em Produção de Televisão e, em Miami, fez estágio na WLRN, muito antes de Arnon Dantas (ex-diretor da TV) aparecer na emissora. Em Sta Cruz de La Sierra, paralelamente à Faculdade de Medicina, criou um programa de TV e durante toda a semana gravou imagens da Feira. Em Miami, também estudou administração de empresas e se formou em comunicação. Como trabalhou no início do Florida Review, o primeiro jornal em português do Estado da Flórida, Felipe já estava mordido pelo “veneno” da comunicação – mesmo se formando como médico – inventou de fazer televisão. Caiu nas graças de Hugo César Ara Sejas, principal pároco da Catedral de Santa Cruz e recebeu convite para criar o primeiro curso de “produção de televisão”, da Universidade de Sta. Cruz de La Sierra. 
Agradeci o convite de visitar a feira EXPOCRUZ – mas o corpo só pedia cama. Afinal estava completando 15 mil quilômetros – por terra – percorridos até a Bolívia. Descansei, sai para comer num restaurante ao lado do Hotel Marco Polo. Comi arroz, bife a milaneza e batatas fritas. Voltei para o hotel e dormi. Ao acordar voltei ao restaurante e provei a Hauii, uma cerveja boliviana com boa leveza de água. Há anos aprendi com o tcheco Jaroslav Prybil (Senior) que uma boa cerveja deveria ter qualidade na leveza da água, assim como na qualidade do Hammel (lupulo). 
Aí, o cansaço bateu mais forte… voltei para o hotel e dormi.
Domingo pela manhã telefonei para o Felipe, peguei um táxi e fui convidá-lo para almoçar num restaurante brasileiro. Cheio de estudantes, no sistema Self Service, a conta totalizou (com refrigerante incluído) uns 8 dólares. Depois do almoço Felipe me levou para a Praça 24 de Setembro, a principal da cidade e saímos fotografando. Mais tarde fomos visitar outros estudantes de medicina. Numa das casas,  ao lado da piscina, uma montanha de latas cervejas – mais ou menos umas 300 latinhas… com diversas garrafas de cachaça e vodca. A casa de dois andares (alugada) era uma comunidade de jovens estudantes numa faixa etária entre 17 e 22 anos e nos fins de semana o “couro comia”… era festa até de madrugada…  Com garotas de todo o Brasil, ninguém namorava ninguém – em outras palavras, uma verdadeira zona.
Após o banho de piscina (sem alcool) fui conhecer a Catedral Metropolitana Basílica de San Lorenzo, o principal templo católico da cidade, construído entre 1770 e 1838, na Praça 24 de Setembro.
Aproveitei para comungar e agradecer ao meu Anjo da Guarda por toda a graça e proteção durante esta viagem. Logo após a missa, fomos conhecer a paróquia, onde o Padre Hugo nos recebeu  com vinhos e queijos. Padre Hugo Aras (que realizou a missa) viveu muitos anos em Pernambuco, no Brasil e conheceu de perto meu primo Don Helder Camara, antigo arcebispo de Olinda e Recife. Hugo era um exímio cantor, uma pessoa vivida e extremamente culta. Logo que me viu, advinhou o meu lado etílico e que eu estava na minha melhor fase de vinhos e queijos… aí, mandou abrir uma garrafa de Kohlberg, um vinho boliviano da melhor qualidade. Nos convidou para sentar ao ar livre, no pátio interno da Catedral, com diversos padres e coroinhas –  todos muito jovens – servindo os tais queijos e vinhos. Quase não saí da Paróquia… Nada poderia ser menos pecaminoso do que tomar aquele vinho no Pátio daquela Igreja. Saímos pelos corredores de pedras, passando por portas enormes, fechadas a muitos ferrolhos… Uma experiência única em minha vida boêmia.
Me despedi de Felipe pedindo que ele passase dia seguinte no hotel onde eu deixaria uma garrafa de Red Label que havia comprado em Puerto Quijaro para comemorar o meu aniversário.
Dia seguinte telefonei para uma agência da Flórida  e pedi que me conseguisse uma passagem saindo de Sta. Cruz ou de La Paz – Queria passar o meu aniversário em Miami…. Imediatamente fui atendido. Já com passagem marcada para a próxima quinta-feira, dormi tranquilo. Na segunda-feira me organizei pensando que o meu vôo sairia de La Paz. Peguei um onibus às 8 da manha pagando 6 dólares para Cochabamba. Uma viagem de 10 horas por 6 dólares poderia ser uma grande aventura.- fotografando melhor as serras, penhascos e subir os tais quase 3 mil metros de altura. Ficaria em Cochabamba por um ou dois dias me adaptando à altura e, seguir viagem para La Paz.
Pela primeira vez, sentei no final do ônibus – cadeira de número 43 – Fiquei super feliz em saber que não havia banheiro… só assim estaria livre do mau cheiro. Para melhor fotografar, comprei o assento da janela. Em menos de meia hora entrou uma família de 6 bolivianos. Uma senhora gorda, vestindo umas 4 ou 5 saias – uma por cima da outra… duas tranças compridas e dois bebês pendurados nos panos super coloridos, amarrados às costas. O marido, bêbado, sentou ao meu lado empurrando minha perna. Em poucos minutos dormiu de boca aberta exalando um hálito único… uma mistura de éter com benzina, misturado a álcool, creolina e quem sabe, cocaína.. As outras duas filhas, sentadas atrás de mim, abriram um garrafinha com água e começaram a soprar bolinhas de sabão na minha cabeça. No meu assento havia um buraco no meio – como se eu estivesse sentado numa privada. Lembrei do primeiro dia quando saí de Miami onde escrevi que nesta viagem a palavra mais importante seria PACIÊNCIA. Liguei o botão do off e me desliguei. Tentei relaxar… de repente uma das meninas escorrega a mão atrás de mim e me dá um soco (sem querer) na cabeça. Voltei para trás e sorri. Quem sabe acontece um milagre? O bêbado, a cada curva, caía a cabeça no meu ombro e eu lentamente a empurrava. Umas 5 horas depois de todo este tormento eu repetia na cabeça, como num mantra: PACIÊNCIA, PACIÊNCIA. 
A um dado momento, com mais uma caída do bêbado para o meu lado, dei uma ombrada tão forte em sua cabeça que fiquei até com pena. Só não foi a nocaute porque já estava nocauteado pela droga. Na parada de meia hora para o almoço, mostrei a ele que minha cadeira estava quebrada e portanto estava sem muito espaço. Ele se ofereceu para ficar na janela e eu consegui então, respirar por umas duas horas. Em pouco tempo ele não aguentou o assento e pediu para voltar ao seu lugar. Aquela altura as crianças já começavam a urinar e a defecar dentro do onibus, em latas ou bacias… Fechei os olhos e pensei nas areias branquinhas de Miami Beach e no sorriso da lourinha que havia conhecido recentemente.
O Bêbado, a cada hora se levantava, ia para trás – ficava no último banco por uns 15 minutos. Era como numa luta marcial; rounds de uma hora de briga por 15 minutos de descanso. Numa destas idas apagou de vez lá trás e eu voltei a relaxar. Já havia passado meio desodorante no meu bigode, quando em menos de cinco minutos de paz, um jovem de uns 15 anos, fedendo muito, sentou-se ao meu lado, também empurrando minha perna. Quando dormiu no meu ombro com os longos cabelos oleosos  (naturalmente cheio de piolhos) dei outra ombrada – tão forte que ele se levantou na hora e foi embora. Já estava ficando profissional em ombradas.
Finalmente chegamos em Cochabamba – e eu quase sem poder curtir o maravilhoso landscaping da Bolívia. Vales fenomenais, rios cristalinos, com pedras brancas e prateadas. De vez em quando uma névoa, onde na serra, somente o motorista – acho que por advinhação – enxergava.
As criancinhas voltaram então a me jogar bolinhas de sabão. Virei para trás com um olhar tão cruel que imediatamente pararam, com medo.
Ao chegar em Cochabamba, mais uma vez sem reserva,  caminhei por uns 8 quarteirões  e encontrei um hotel com um enorme cartaz que dizia; SAUNA. Seria um puteiro? Cheio de curiosidade subi e perguntei se aquilo era um hotel….“Sim, é hotel, a sauna fica lá em cima e só funciona de 2 às 6 da tarde”, disse a atendente. O hotel Sao Felix não tinha wifi – mas o preço de 90 bolivares (15 dólares) era convidativo. A atendente ainda disse que eu poderia levar qualquer pessoa para o quarto – com tudo incluído no preço. Agradeci, tomei um banho e saí a procura de um wi-fi ou cyber cafe. Andei uns 12 ou 15 quarteirões e nada. A região da rodoviária, um grande bazar. Barracas coloridas, com pessoas cozinhando em enormes bacias de alumínio, centenas de crianças mamando em enormes peitos expostos …. nús. Comi uma salteña (pastel) boliviana com um bom cafe e descobri um cyber cafe. Tentei de tudo mas não conseguia abrir o Gmail. teria que preencher um longo cadastro e fiquei com medo de alguma invasão de privacidade. Fui noutro cyber cafe – chamar aquilo de cyber cafe é um elogio – era uma sala cheia de indios sujos com diferentes fedores.
Dormi já meio preocupado em sair o mais rápido possível daquela cidade. Dia seguinte fui ao centro e descobri melhores paisagens, gente um pouquinho menos feia e aleluia: uma sala de internet onde tudo funcionava. Alí descobri que meu vôo não sairia de La Paz. Voltei ao terminal Bi-Modal (onibus e trem) e pedi a passagem mais cara (de leito) de volta para para Santa Cruz. Paguei 20 dólares e consegui um assento de couro – individual – super confortável.
Andei uns 20 ou 30 quarteirões pelo centro da cidade e consegui ver alguma beleza na cidade de Cochabamba, uma cidade de 1.938.401 habitantes colonizada pelos “Quechuas”, que deram o nome do vale “Qocha” e “Pampa” – que significa laguna e planície – os conquistadores espanhóis adpataram os nomes para Cocha Bamba .
De volta a Santa Cruz descobri que não tinha visto de entrada. Fui na seção de vistos um dia antes de minha viagem. Cheguei às 10 da manhã peguei uma ficha e esperei até às 13:30 quando fui atendido por um oficial de uns 30 anos. Durante as 3 horas e meia de espera, para me famializar com os problemas, procurei sentar o mais próximo possível do “officer” e escutar os problemas. Quase todos estavam alí pelo mesmo motivo que o meu – falta de visto de entrada. Quando entrei em Puerto Quijaro perguntei ao fiscal se estava tudo em ordem…. se não havia mais nada a fzer. Ele disse apressado: passe, passe…
Pensei que poderia ser uma nova lei – de que não houvesse necessidade de visto… sei lá…
Quando fui atendido expliquei a situação dizendo que iria viajar no dia seguinte e precisava regularizar  o visto. Mostrei o recibo de entrada que estampava a data de uma semana atrás. Ele me disse: “Então o Senhor entrou ilegalmente em nosso país?
Eu disse: Ilegal não – irregular por culpa de vocês. E contrei a história. Não adiantou. O senhor terá de pagar 300 bolivianos de multa.
Para não discutir e perder o voo do dia seguinte concordei em pagar.
Onde pago?
O Senhor terá que voltar aqui entre 2 e 2: 30 da tarde para apresentar o recibo desta taxa que deverá ser paga no Banco Union.
Peguei um taxi fui ao banco, preenchi um formulário e paguei a conta. Peguei outro taxi e voltei correndo para a seção de imigração – tinha que estar lá entre 2 e 2:30. Chegando na porta do predio vi uma enorme fila. Só abriria às 2:30. Às 4 da tarde consegui ser atendido, mostrei o pagamento e me enviaram para um guichê para carimbar o documento. Às 4: 15 consegui o tal carimbo. Agora o senhor tem que voltar entre 5 e 6 da tarde – horário que o fiscal que lhe atendeu irá despachar os vistos de saída. Entrei em outra fila e esperei até 6:30 horas o jovem que me atendera pela primeira vez voltar e carimbar no meu passaporte. Às 7 horas, já com o carimbo no passaporte estava livre para viajar. O processo todo demorou 9 horas para ser resolvido. Centenas de pessoas gritando e reclamando da  desonestidade dos fiscais na entrada do país etc…. 
 
Quando cheguei no aeroporto fiz o check in e um atendente me perguntou se já havia pago a taxa de saída. 
Mas não está incluída? 
Não é a taxa de embarque – é a taxa de saída.
Entrei na minha última fila e paguei uns 50 dólares extras para poder sair do país. Lembrei de quando morei em Havana, Cuba, onde se paga para entrar e paga para sair….
Ao sentar na cadeira do avião dei uma grande gargalhada e pensei:
 
PACIÊNCIA… PACIÊNCIA…. PACIÊNCIA…. 
Tô voltando…
 
Detalhe do autor: De Miami fui de avião para Curaçao e Caracas. Em Caracas iniciamos a travessia pela floresta até Santa Elena do Uiaren a fronteira com o Brasil. Atravessamos a fronteira na cidade de Pacaraima e de lá seguimos de táxi para Boa Vista (Capital do Estado de Roraima) – Fui para Manaus e de lá, de “gaiola” (navio) – durante 5 dias – navegamos pelo Rio Amazonas com direção à Belém. De lá pegamos um ônibus para Fortaleza, depois seguimos para Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Campo Grande, Corumbá, Puerto Quijaro, Santa Cruz de La Sierra e finalmente Cochabamba. Voltando a Santa Cruz, peguei um avião no aeroporto de Viru Viru com direção à Miami.  
Até a volta!