FEIJOADA DO CHICO MOURA
UM POUCO DE HISTÓRIA

Cheguei em New York no dia 30 de junho de 1972. Mudei para Miami em 1983. Ainda tentei morar em algumas outras cidades americanas, mas nenhuma poderia oferecer maior semelhança aos anos dourados de Ipanema, onde fui criado (cheguei aos dois anos de idade no posto Oito), ou às fantásticas férias do meu Ceará: muita praia, frescobol, barco, mergulho, pescaria, chopp gelado e muita música boa.

Miami reúne, além da beleza natural, um excelente clima, uma fusão e variedade de raças que a transforma numa cidade cosmopolita e moderna.

Após representar o jornal O Globo (em todos os Estados Unidos), de criar em janeiro de 1985, o primeiro jornal (Florida Review) em português do Estado da Flórida, o primeiro programa de televisão em português (Tele-Brasil) e de fazer algumas experiências com rádio (Alo Brasil), voltei ao Rio de Janeiro em 1992, onde nasceu a minha primeira filha; Marcella Rangel Moura. Dois anos depois voltei para os EUA…Os dois filhos mais velhos, Carlinhos e Paulo Roberto vão traçando os seus destinos. E como o pai, seguem caminhos completamente adversos. Um entrou para o exército americano (já é Capitão) e o outro mora em South Beach. Para entender melhor esta comparação, basta ler qualquer um de meus livros, que basicamente retratam uma história parecida a um filme, que no Brasil levou o nome de “Pequeno Grande Homem” – o personagem principal, Dustin Hoffman, vivia momentos completamente diferentes, circunstanciais. Na América, muitas vezes, os amigos, os trabalhos e os lugares que vivemos, são circunstanciais.

A Turma do Chorinho

A IDÉIA DA FEIJOADA

Muito bem. Com a história criada, os livros publicados… e os anos passando, os turistas brasileiros sumiram da cidade. Os negócios foram acabando…. A internet acabou com metade de minha vida. O fim definitivo dos jornais! Além dos jornais, aconteceu um enorme êxodo de negócios de brasileiros em downtown (o centro da cidade).

Um dia, conversando com o amigo Gerson Delano (um dos que sobreviveram ao êxodo) pensei em fazer uma feijoada – No centro de Miami.

Já que tudo virou uma grande anarquia, já que não existe qualquer compromisso com nada, vamos reunir um grupo de pessoas – que restaram – ao redor do nosso maior prato: o feijão.

Qualquer brasileiro sabe fazer uma boa feijoada. No Brasil, o nosso companheiro de turismo, o Michelão, já criou há muitos anos, o CLUBE DO FEIJÃO AMIGO e o Ricardo Amaral fez história com a FEIJOADA DO AMARAL.

No sul da Flórida, hoje habitam mais de 250 mil brasileiros. Muitos estabeleceram as suas raízes, criaram os seus filhos e netos. Os mais antigos não pensaram em “fugir “dos problemas econômicos… Vieram para ficar. Mesmo que a economia não esteja a favor,,. Pensando nesta necessidade de se reencontrar, criamos a ‘FEIJOADA DO CHICO MOURA”.

 O COMEÇO
 
 Tudo começou em casa, recebendo 8, 10 amigos nos fins de semana. Eles foram aumentando e a patroa reclamando. A solução foi encontrar um lugar onde pudéssemos nos reunir ao redor de uma boa feijoada. Como fazer uma feijoada num restaurante qualquer? Nenhum cozinheiro iria permitir uma invasão de “estranhos” em sua cozinha. Encontrei com o Mario Braz no centro da cidade de Miami. Ele tinha um restaurante localizado no meio de uma galeria. Comecei falando da loja ao lado (vazia), onde poderiam ser colocadas umas mesas servindo a feijoada. Com o OK do Mário, comprei uma panela do tipo “batalhão” e algumas bandejas. Falei com o Alberto Decat e o Luís, da Baby Beef, com o pessoal da TAM (Sales e José Sampol) e com o Marcelo Netto, da Star – Já estavam garantidos os três primeiros patrocinadores.
Fui na internet e procurei algumas receitas. De todas, a que deu “saudades” e mais agradou, foi a do Restaurante Bolinha, de São Paulo. E nela nos inspiramos para criar a FEIJOADA DO CHICO MOURA.
Lógico que também pesou a saudade das feijoadas de sábado do Copacabana Palace e as novaiorquinas, principalmente do restaurante Via Brasil – do nosso amigo Luis Gomes.
O TRABALHO
 
Em Miami, nas sextas à noite começava a cozinhar em casa com a idéia de levar em grandes travessas, no dia seguinte, para o restaurante. Era um sufôco! caldo de feijão espalhado pelo chão, fogões destruídos… E o pior… não destruía somente os meus fogões. Até os amigos entravam no prejuízo – como foi o caso da cozinha do João Pereira, um mineiro da melhor qualidade, que viu o seu fogão ser literalmente destruído…
Com o tempo fomos aprendendo… o tempo ensina tudo! e fomos descopbrindo os melhores “tasajos” e os melhores paios.
 Para não entrar em conflito com o “chef” do restaurante – que poderia se sentir humilhado em seu reinado – chegamos à conclusão de que o melhor seria eu entrar sozinho (na cozinha) na sexta à noite e fazer a pré-produção. Sozinho cortava os alhos, cebolas, separava as carnes fervia para tirar o excesso de gordura e o mau cheiro. Juntava tudo num panelão e dava uma cozinhada. Esperava esfriar e guardava tudo na geladeira, hermeticamente fechado para não transferir ou receber aromas estranhos…
Dia seguinte (sábado – às 7 da manhã) chegava com 3 ajudantes e o processo continuava todo outra vez. Às 11 chegavam os outros 4 ajudantes e estava dada oficialmente a largada para a loucura…
Normalmente os donos dos restaurantes concordavam em faturar nas bebidas e nós na comida. Se um restaurante não abrisse aos sábados (de dia) seria então perfeito. Se nesta tarde colocássemos umas 300 pessoas os donos teriam um faturamento de pelo menos uns $ 4.000 -E isto (normalmente) de 1 às 5 da tarde.   
Vejam fotos

A segunda feijoada aconteceu no Gil’s Cafe, um simpático restaurante na praia de Miami Beach. O prorietário Gil Santos ofereceu o salão, terminando com um belíssimo show de samba.

O terceiro encontro foi no Restaurante Rio, onde antes de ser inaugurado, recebeu mais de 100 pessoas que comeram de nosso feijão, de 13 às 20 horas.

Daí virou moda na cidade de Miami… Sempre num sábado; a “FEIJOADA DO CHICO MOURA”, uma reunião informal, sem compromisso político, social ou religioso, aberto a todas as classes de brasileiros e estrangeiros que queriam se divertir, com boa música, bom papo e uma excelente feijoada.

O preço de mais ou menos 15 dólares dá direito à saborear um excelente arroz, couve à mineira, farofa do Brasil, laranjas, pimentas do Brasil (malagueta) e ainda; a famosa caipirinha (muitas vezes por baixo do pano) e batidinha de limão.

Logo em seguida aconteceu em South Beach, no restaurante L’Entrecote de Paris, com a presença do Prefeito de Miami Beach, do Cônsul do Brasil, Lucio Amorim (na época), do Vice-Consul Francisco Fontenele, de diversos políticos do Brasil, de Helô Pinheiro (a Garota de Ipanema), Rony Curvelo, Pery Ribeiro e outros.

Os anos foram passando e a FEIJOADA DO CHICO MOURA atravessou o oceano.. Aconteceu em Setúbal, Portugal, em The Haig (Holanda), Fortaleza, Rio de Janeiro, New York, Newark (New Jersey), Orlando e Seattle.

ALGUNS RESTAURANTES

Ever Cafe (downtown Miami), Gil’s Cafe (Mimai Beach), Hotel Colony (Ocean Drive), L’Entrecote de Paris (South Beach), Rio’s Restaurant (South Beach), Favela Chic (Miami Beach), Bristrô (Miami Beach), Picanha’s (Bay Harbor), Mendoza Restaurant (Brickell), Taste of Brazil (Pompnao Beach) e Giovana’s Caffe (downtwon), The District (Design District), Las Delicias (downtown), Sola Bistro (Downtown), Volcano Restaurant (Orlando), La Fonda (downtown Miami)  Seaman’s Cafe (Port of Miami), Kybom (Pompano). Jazz & samba restaurant (Orlando), Boteco (N. Miami) 

FEIJOADA
 

Prato tradicional da culinária brasileira, a feijoada é assunto delicado para se falar em nosso país. É como comentar sobre futebol. Cada um tem a sua receita. Nestes oito anos encontrei tantos “segredos” que quase pirei. O Paulo (ex-cozinheiro do Picanha’s) me dizia que sempre deveria se derramar um copo de cachaça no feijão. O Beto Shneider (ex-Steak Masters) dizia que uma boa feijoada deveria “sempre” ter lingüiça defumada. O Jaime Felzem de New York (da loja Brasil Som), foi na cozinha do Via Brasil e me mostrou como deveria ser cortada a cebola – sempre em pedaços pequenos. O cozinheiro do Restaurante Bolinha (de São Paulo) dizia que era necessário se colocar duas ou três bandas de laranjas cozinhando junto ao feijão. O Pery Ribeiro só comia se tivesse costelinha de porco. Assim foi com o paio especial do Eliakim Araujo, a carne seca do Helio Gusmão (de New York), o caldinho da cantora Rose Max, a presença dos vegetarianos e judeus ortodoxos (que comiam escondido) o torresmo e a lingüiça frita para o pessoal do Baby Beef …

Esta feijoada é uma reunião gastronômica com o intuito de colocar os concorrentes lado a lado, as pessoas que não se falam, o encontro da midia, funcionários das agências de viagens, das agências de remittance e até proprietários de outros restaurantes. Nas últimas feijoadas a presença da gaúcha Silvana Mandelli era esperada pelos presentes que ansiosamente concorriam ao sorteio de uma ou duas passagens de ida e volta ao Brasil – oferecida pela TAM – a maior companhia aérea do Brasil. Hoje em dia a TAM retirou o patrocínio por decisão do pessoal do Brasil. 

Numa destas feijoadas, realizada em Pompano Beach, no restaurante Taste of Brazil, tivemos a honra de receber o crítico em gastronomia, o nosso guru: Antonio Nina, que durante muitos anos colaborou com uma coluna no nosso antigo jornal Florida Review..

UMA HISTORINHAA feijoada é o resultado da fusão de costumes alimentares europeus e a criatividade do escravo, transformando no símbolo da culinária nacional, o que em inglês chamamos de Brazilian National Dish.

Na corrida do ouro na capitania de São Vicente (SP) e na exploração do cacau, algodão e café fez aumentar a necessidade de mão-de-obra escrava. Em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso o escravo ficava meio isolado sem condição de cuidar de sua própria comida. Os mantimentos vinham do litoral paulista e carioca carregados nos lombos dos animais – daí a origem do “feijão tropeiro” – a fusão do cozido português (com variados tipos de carnes e legumes) com o feijão, toucinho e farinha, estava então, oficialmente criada a feijoada. Com o tempo, os escravos foram acrescentando partes do porco que os Senhores desprezavam: a orelha, o rabo e o pé.

A nossa feijoada é acompanhada de arroz branco, farofa de mandioca com bacon e muito alho, molho de pimenta e couve, que depois de cortada bem fininha é frita com pedacinhos de paio, linguiça e alho picado.

 
A NOSSA RECEITA (FARTA) PARA 10 PESSOAS:

 

INGREDIENTES:
 

800 gr de carne seca

300 gramas de carne de porco salgada

350 gramas de costela de porco salgada, ou defumada

350 gramas de pé de porco salgado

250 gramas de rabo de porco salgado

250 gr de orelha de porco salgada

350 gr de lombo de porco defumado ou salgado

500 gr de paio

500 gr de lingüiça calabresa

250 gr de linguiça portuguesa

250 gr de bacon

1 kg de feijão preto (prefira feijão novo)

500 gr de cebola picada.

200 de alho picado

4 maços de couve

2 pacotes de farinha de mandioca crua

10 fls. de louro

10 un. de laranjas com casca (bem lavadas)

MODO DE FAZER
 

Deve-se retirar o excesso de gordura e nervuras colocando de molho (as carnes salgadas) trocando a água de 6 em seis horas.

Com pedaços grandes de carne, ferver (mexendo com uma colher de pau) por uns 10 a 15 minutos em fogo alto, jogando fora todo o excesso de gordura. Ferver duas vezes. A carne sêca deve ser fervida numa panela em separado. Na outra pode-se misturar o pé, a orelha e o rabo. Estas fervuras são para tirar a gordura e a sujeira das carnes.

Colocar o feijão numa outra panela (grande) com água, misturado com duas cebolas bem picadinhas e 8 dentes de alho (bem picados) – ferver e colocar as carnes – pela ordem: primeiro a carne seca, orelha, pé e bacon.

Quarenta minutos depois colocar a costelinha e o rabo. Depois de 20 minutos colocar o lombo, a lingüiça e o paio. Deve-se acrescentar (jogar dentro da panela) duas meias bandas de laranja e 8 folhas de louro. As laranjas tiram o excesso de gordura das carnes menos nobres.

Após a fervura, retire as laranjas e as folhas de louro – para o tempero final, deve-se fritar (em uma frigideira grande) usando duas chícaras de AZEITE DE OLIVA, mais duas cebolas grandes (bem picadas) com alho.

Após a mistura do tempero (frito) na feijoada, ferver por mais uns 15 minutos e deixar esfriar – guarde na geladeira. No dia seguinte retire com uma colher, toda a gordura que está em cima da feijoada e leve ao fogo por mais uma hora e meia antes de servir.

Aí entra o grande segredo de uma boa feijoada: O tempo que cada carne deve ficar na panela. É extremamente fácil verificar o grau de maciez das carnes. Basta retirar da panela e testar com um garfo – Depois corta-se em pedaços menores – nem todas as carnes cozinham ao mesmo tempo. Vá retirando as mais macias e reservando num recipiente qualquer.

Quando o feijão estiver cozido, volte as carnes (todas) para a panela e pique (opcional) salsa e cebolinha (a gosto) e ferva por mais 10 ou 15 minutos. E está pronta a FEIJOADA. Ao final prove o sal. Sempre fica um pouco do sal da carne seca e de outras carnes. Repare que até aqui não falamso de sal…. Se estiver totalmente sem sal, vá salgando a gosto – no final.

O arroz deve ser branco e a couve refogada no azeite com muito paio, linguiça e alho frito. A farofa de mandioca pode ser feita de diversas formas.

O aperitivo é a cachacinha pura – de alambique – servida em pequenos copinhos no estilo botequim de estrada.

Bons sonhos!!!